terça-feira, 4 de junho de 2013

Elena Undone

Neste longa a diretora Nicole Conn mostra passo a passo o surgimento de uma paixão. Talvez o desenvolvimento do sentimento no filme fosse lento, não fosse a necessidade de desconstruir certas premissas antes de chegar ao ápice do enredo.

Primeiro somos apresentados à Elena (Necar Zadegan) e todo o conservadorismo que a cerca. Vinda de uma tradicional família indiana, a protagonista se casou para tentar fugir do conservadorismo e chega aos quinze anos de casada, com um pastor como marido e um filho adolescente, frequentando cultos que falam sobre encontrar o amor perfeito o mais cedo possível.

Seguindo o caminho desta vida morna, Elena conhece Peyton (Traci Dinwiddie). A afinidade entre as duas proporcionou o início de uma forte amizade, que não alterou nada na vida de Elena, apenas trouxe a tona pontos que ela ou desconhecia ou se esforçava em esconder. Passado o impacto ao descobrir que Peyton é lésbica, a protagonista passou a encarar o assunto com a naturalidade que só o preconceito impede.

É bastante previsível logo no início do filme que as duas irão se apaixonar, o fato é que se Elena tivesse encontrado outro homem e sentisse uma atração forte o bastante para abalar seu frágil relacionamento, todo o envolvimento poderia se desenvolver em uma ou duas cenas, para que a protagonista superasse as dúvidas e hesitações naturais e tomasse coragem para mergulhar em um novo amor.

O que chama a atenção no trabalho de Nicole Conn é a projeção de vários estereótipos nos personagens, que são desconstruídos com empatia e naturalidade. Diante da existência do preconceito, é mais viável identificar alguns padrões de comportamento, que são bem distintos entre si, do que tentar enfrentar a todos da mesma forma.

Vemos, por exemplo, que a hesitação inicial de Elena acontece pela falta de experiência. É compreensível que uma pessoa crescida em meio a valores extremamente tradicionais e casada com um homem machista e preconceituoso não se sinta a vontade diante de uma situação que sempre foi indicada como errada. Apesar disso a personagem não se mostra intolerante em nenhum momento.

É bem diferente de seu marido, o pastor Barry (Gary Weeks), que simbolizando todo o conservadorismo prega aos seus fiéis o tradicional discurso sem conteúdo sobre a tradição da família, ignorando, por exemplo, o fato de a própria igreja protestante ter surgido graças às divergências com dogmas católicos, que entre outras coisas proíbem o casamento dos sacerdotes.

A princípio Peyton é extremamente racional e centrada. Experiente, não quer se entregar a um sentimento que parece ter tudo para dar errado. De fato, se a mudança de comportamento de ambas fosse abrupta, seria um sentimento forçado e não seria tão bem aceito por quem assiste.

A naturalidade com que Elena passa a encarar a possibilidade de um relacionamento esbarra nas dificuldades evidentes de ter por outro lado uma família estruturada, a pressão social em relação ao impacto que uma separação gera nos filhos – independente da idade –, a tensão de informar ao marido que o casamento já não existe, etc.

E por parte de Barry, a reação foi a mais evidente, ainda que ridícula, ou seja, tentar encobrir as próprias falhas culpando as supostas más influências sofridas pela esposa, no caso por parte de Peyton. Muitas vezes a insegurança diante das próprias atitudes é defendida, mesmo que inconscientemente, através da desconstrução do outro. Desta forma, pelos outros estarem errados, a pessoa justifica (erroneamente) os próprios atos, que nem chegam a ser reconhecidos como preconceito.

A forma mais natural que o cinema tem para indicar que não há nada de errado com o enredo do filme, e seu caráter inusitado se dá pelo preconceito histórico, não por interdições biológicas, é evidenciar os percalços das duas personagens, que são rigorosamente os mesmos que seriam enfrentados caso no lugar de Peyton, Elena tivesse conhecido um homem. É evidente que existem nuances comportamentais que diferenciam as personagens, mas em essência, o filme consegue deixar claro que o estranhamento em relação ao casal se dá pelo preconceito, não pela relação ser homo afetiva.

Para um público específico, que já tenha superado preconceitos de gênero e sabe encarar com naturalidade situações que não demandam nenhuma reação adversa, o filme é um romance interessante, bem filmado, cujo enredo não traz grandes revelações, mas é no aspecto didático que Elena Undone ganha destaque, por cativar aqueles que assistem, desfazendo aos poucos o estranhamento, que pode dar lugar a uma visão de mundo menos preconceituosa.


28 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns! Texto muito bom - reflexivo. Assisti esse filme e destaco justamente a forma como a história se desenrolou, tudo no tempo certo e com cenas fáceis de entender os sentimentos e as situações. E você aborda isso de maneira bem delicada no seu texto.

Alexandre Caetano disse...

Que bom que gostou! Uma pena que esse filme não seja tão conhecido...

Anônimo disse...

filme maravilhozo.nota 10

Danielle disse...

Queria muito ver esse filme legenda portugues nao consigo algum site ? plese

Alexandre Caetano disse...

Danielle, tem nesse link abaixo. Qualquer dúvida ou dificuldade entre em contato que eu te explico como baixar. Só não deixe de ver pq o filme é ótimo =)

http://www.omelhordatelona.biz/elena-undone/

Anônimo disse...

Foi um dos melhore filmes que já vi, e acho que deveria ser mais publicado e fácil acesso para as pessoas. Esse filme mudou minha historia de vida assim como tenho certeza que mudou de varias pessoas. Não e atoa que foi tema de uma Tese da Faculdade de Brasília como um dos melhores filmes Lesbicos. Parabéns pelo texto. Espero quem dia possamos ter acesso a esses filmes com mais facilidade.

simplesmente amo esse filme.

Alexandre Caetano disse...

É bem legal quando um filme muda a história da nossa vida ou nos aproxima de uma realidade com a qual não costumamos ter contato, ampliando nossos horizontes =)

Esses dias descobri que traduziram o título do filme por aqui como "A mulher do pastor"... achei péssimo!

Anônimo disse...

Oi, eu pesquisei sobre o filme depois que assisti, nao encontro quase nada sobre ele. Queria entrevistas das atrizes sobre o filme e nada. Nunca tinha visto um casal com tanta quimica em filme, impressionante. Necar Zadegan se entregou de tal maneira ... Eu até pensei que poderiam ser casal na vida real acredita?! Rs ... Que cena do sofá!!! E o beijo !!! Atrizes de parabens ... Tem link e fonte em ingles sobre o filme ??? Quando gosto de ym filme, procuro saber as curiosidades ...

Alexandre Caetano disse...

Pois é, o filme merece muito mais destaque, não entendo porquê é desconhecido. Tudo bem que o tema ainda é um tabu, mas tem vários que tocam nesse mesmo assunto e são mais populares. Infelizmente eu também não encontrei materiais complementares =/

Bárbara Monalisa disse...

O filme é baseado na história da Nicole Conn e da Marina?(atual esposa ) Eu fiquei com essa dúvida e estou procurando loucamente a verdeira Elena.

Anônimo disse...

Esse filme mexeu muito comigo tenho 43 anos 20 de casada e nunca tinha me sentindo assim querendo viver um amor assim, já que me sinto atraída por mulheres. mas escondo esse desejo.

Alexandre Caetano disse...

É muito bom ver que o cinema ultrapassa o entretenimento. Muitas vezes interpretamos o que sentimos como se fosse único, as vezes até errado, e um filme nos mostra a naturalidade com que as coisas podem ser encaradas! Obrigado pelo comentário e boa sorte com suas escolhas ^^

joyce moraes disse...

Perfeito apaixonada pelo filme

joyce moraes disse...

Perfeito apaixonada pelo filme

Anônimo disse...

Olá! Honestamente, eu tinha grande dificuldade em assistir um filme com mulheres se relacionando intimamente, mas este filme é fantástico! A forma como tudo se desenrola, o crescimento do sentimento, a quebra do preconceito, o envolvimento, a delicadeza dos toques, o amor entre elas, mexeu muito comigo. Como já publicaram em outro comentário, este filme aflora o sentimento que todos temos de um grande amor acontecer em nossas vidas. É como um conto de fadas . As atrizes são lindas, principalmente, a Traci, ela é envolvente, apesar de eu ser casada e hetero, devo admitir que se fosse lésbica gostaria que meu relacionamento fosse com ela. De qualquer forma, me pus a pensar e aceitar muitas coisas que não via ou não queria ver. Foi ótimo! Perdi a conta de quantas vezes assisti o filme e também os clipes relacionados no youtube. As músicas são muito legais. Toda forma de amor "verdadeiro" vale a pena!

vanusa lopes uzai disse...

Adore o filme não tem dublado

Alexandre Caetano disse...

Acho difícil, Vanusa... legendado já é meio complicado de achar e não é o tipo de filme que vai passar na tv (seria uma afronta à tradicional família brasileira :P)

regina disse...

Por que que não abaixa esse filme no YouTube legendado em português

regina disse...

Gostaria de saber porque vocês não posta esse filme no YouTube legendado em português ele é muito lindo

Anônimo disse...

Gente, acabei de ver na Netflix e vim procurar sobre, simplesmente lindo, esse filme. Parabéns pela resenha, Alex!

Ingrid Medeiros disse...

É um belo filme, já assisti mais de 30 vezes. Primeira vez que assisti me apaixonei pela história e, quando percebi passei uma semana assistindo esse filme dia e noite rsrs.. Espero um dia ter um amor assim e uma companheira como a Peyton (Traci)! Meus agradecimentos ao(a) aultor(a) dessa história!!

Ingrid Medeiros disse...

É um belo filme, já assisti mais de 30 vezes. Primeira vez que assisti me apaixonei pela história e, quando percebi passei uma semana assistindo esse filme dia e noite rsrs.. Espero um dia ter um amor assim e uma companheira como a Peyton (Traci)! Meus agradecimentos ao(a) aultor(a) dessa história!!

Indiamara Camargo disse...

amei o filme sou casada a 12 anos mas de um tempo pra ca me sinto atraida por mulheres querendo viver um amor assim as vezes penso q nao existe o filme me ajudou muito assim como lostgirl sem sombra de duvidas os dois sao os melhores q eu ja vi

Anônimo disse...

este filme é maravilhoso mesmo! e passou recentemente no Netflix.

joana darc gomes marinho Gomesmarinho disse...

oi, vi o filme todo, mais tenho uma dúvida essa cena onde elas estão deitadas na cama, dessa foto que vc tem, essa parte o filme não vi tem essa parte? foi cortada e não passou, ou o netflix pulou essa cena. me tira essa dúvida por favor.

Alexandre Caetano disse...

Oi, Joana! Eu baixei o filme e tb não tem essa cena, deve ser material que acabou não entrando na versão final, mas a foto ficou bem bonita!

Nadia Oliveira Souza disse...

Como todos aqui, também me apaixonei pelo filme. Impressionante a química entre as atrizes. O filme mudou meu olhar sobre os relacionamentos homo afetivos. Passei a desejar viver uma história semelhante.Vi e revi varias vezes e baixei no meu computador. É o meu "filme de cabeceira". Assisto quase que diariamente, antes de dormir. A beleza da história preenche meu vazio existencial. Foi bom saber que exitem tantas pessoas que também foram profundamente tocadas pelo filme. Uma obra capaz de causar essas reações, em tanta gente, deveria ser mais divulgada.

Nadia Oliveira Souza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
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