terça-feira, 8 de agosto de 2017

Batismo de sangue

Um Estado governado por militares, com tortura de cidadãos civis, eventuais assassinatos e ocultação de cadáveres por parte daqueles que deveriam zelar pelo bem estar da população. Na economia, um falso crescimento amparado pela dívida externa que aumentava exponencialmente. A corrupção era facilmente dissimulada, tanto através da censura institucionalizada quanto pelas formas violentas que o estado de anomia oferecia aos militares para inibir denúncias.

As linhas gerais do que foi o período de ditadura militar no Brasil não nos dão uma ideia exata do que sofreram aqueles que foram politicamente perseguidos. Neste ponto o livro ‘Batismo de sangue’ de frei Betto, aqui adaptado pelo diretor Helvecio Ratton, elucida o terror vivido pelas vítimas do regime, detalhando as arbitrariedades, as torturas físicas e o terror psicológico imposto pelas autoridades.

O argumento insano de que bastava não cometer crimes para não ter problemas com o Estado, ainda que possuísse alguma legitimidade, era falso. Mesmo os criminosos reais devem ser punidos com respeito à dignidade humana, não obstante, é notável no filme que inocentes foram torturados, até que a suspeita de envolvimento com a guerrilha fosse desfeita.

A tortura e toda forma de punição pelo suplício é inaceitável qualquer que seja o aspecto analisado. É no mínimo frustrante pensar que hoje algumas pessoas vejam os métodos utilizados nos porões da ditadura, que incluíam dias de privação de sono, choques elétricos nos órgãos genitais, estupros, queimaduras e o que mais a criatividade sádica pudesse criar, como algo minimamente construtivo.

A narrativa se restringe ao recorte histórico da perseguição a frades dominicanos, sob a alegação de contribuir com guerrilheiros liderados por Carlos Marighella (Marku Ribas). Questionar um governo ditatorial e lutar pela democracia não é crime. Ainda que atos políticos pudessem ser nivelados com crimes comuns, a justiça baseada em leis, com direito à defesa e contraditório são ganhos sociais pelos quais lutamos duramente.

Um dos destaques da história, até por ser o autor do livro, é frei Betto (Daniel de Oliveira), que não sofreu torturas físicas por influência familiar. Militante político com habilidade rara de tecer alianças entre a Igreja e os combatentes, após quatro anos de cárcere o dominicano produziu várias obras aproximando os valores cristãos de uma política social voltada aos necessitados.

Essa proximidade, que deveria ser elementar, nem sempre é valorizada pela instituição política representada pela igreja Católica. Contrariando dogmas religiosos, algumas figuras notórias da Igreja distorceram interpretações bíblicas com o intuito de relativizar a atitude dos militares e tentar atribuir alguma culpa a ser punida, por parte dos frades.

A omissão custou caro, sobretudo a frei Tito (Caio Blat). Em resposta à covardia acima da média de sua sessão de tortura, Tito resistiu estoicamente para livrar seus companheiros do mesmo suplício pelo qual passou. Porém os efeitos da tortura não são mesuráveis. Assim como a resistência à dor é variável, portando aquele que cede às pressões não pode ser criticado, os traumas gerados pelo sofrimento são imprevisíveis e, no caso de frei Tito, irreversíveis.

No outro extremo da história, o destaque é o torturador Sérgio Fernando Paranhos Fleury (Cássio Gabus Mendes). Um pai dedicado e amoroso, que defendia valores morais e a instituição familiar; tudo lavado com o sangue de civis torturados impiedosamente.

O autoritarismo em nome da liberdade do ‘cidadão de bem’ que precisava ser protegido da ameaça do comunismo não se sustenta. O período de tensão política e forças divergentes que culminaram no golpe de 64 nunca chegou a ter um movimento de esquerda coeso e forte a ponto de almejar o poder.

O que muitos tentam impor através do discurso histórico como ações terroristas foram, na verdade, reações ao autoritarismo que tomou o poder, barrando avanços sociais e trabalhando em prol de uma elite econômica que até hoje concentra a maior parte da riqueza do país.

Há alguns anos atrás poderíamos pensar em Batismo de Sangue como um documento histórico obrigatório. Hoje, com o avanço da extrema direita e grupos de manifestantes clamando pela volta do regime militar em carros de som, a obra ganha tom de alerta. Quem sabe as cenas de tortura – inevitavelmente desagradáveis e repugnantes – não sirvam de aviso para a falta de limites daqueles que em nome da ordem instalam um caos silencioso e sangrento.


sexta-feira, 28 de julho de 2017

Viva

Cuba é um ícone político mundial desde a revolução de 1959, o cinema da ilha tradicionalmente reflete os pilares defendidos pelo sistema político, servindo de propaganda e formação dos seus cidadãos.

Fugindo dessa tradição, o diretor Paddy Breathnach traz às telas temas cotidianos, repleto de peculiaridades cubanas, mas que pode ser transposto com poucas adaptações a outros países.

O protagonista é Jesús (Héctor Medina). Vivendo sozinho e tendo poucos amigos, trabalha como cabeleireiro e ajuda nos bastidores de uma boate, onde se apresentam drag queens. Seu sonho não está tão distante. O jovem gostaria de não ficar limitado aos bastidores das apresentações e subir ao palco como atração da boate.

Parece um objetivo bastante plausível, sobretudo com as amizades que já tem, com drags que poderiam ajuda-lo na nova carreira. Porém, logo fica claro que Jesús não escapará da realidade tão comum aos homossexuais.

Não bastassem as dificuldades naturais na vida de qualquer pessoa, ele terá como acréscimo o obstáculo da homofobia, que com algumas nuances o filme dá a entender que assombrou o personagem durante a vida escolar e agora surge inesperadamente.

Jorge Perugorría, que no filme Morango e Chocolate interpretou um homossexual, desta vez é Angel, pai de Jesús, que saiu da prisão após quinze anos de cárcere e parece ter voltado apenas para dificultar a vida do filho. O ex-boxeador proíbe Jesús de se apresentar e com ambos desempregados, pai e filho – praticamente dois desconhecidos – devem dividir um pequeno apartamento, em um esforço diário para comprar comida.

Com o crescimento da luta do movimento LGBT a tolerância aos atos de homofobia vem diminuindo, ainda que bem mais devagar que o necessário. Atitudes homofóbicas já não são vistas com naturalidade por boa parte da população, o que nos faz estranhar certas atitudes complacentes de Jesús com o pai.

O jovem prefere aguentar Angel bêbado e autoritário do que recorrer à ajuda de Mama (Luis Alberto García), a principal drag queen da boate. A escolha é explicada ao longo do filme. Pode ser questionável, mas nesse sentido as raízes do cinema cubano são mantidas, pois a história rende reflexões e debates que tendem a aprofundar uma visão geralmente superficial sobre o tema abordado.

O diretor opta por retratar os personagens de acordo com os estereótipos mais comuns. O homossexual cabeleireiro, sensível; e o homofóbico lutador, alcoólatra. É uma certa restrição, pois uma das reivindicações do movimento LGBT é exatamente a desconstrução de locais pré-determinados aos homossexuais, porém não deixa de ser uma denúncia da restrição no campo de atuação para aqueles que não se encaixam na heteronormatividade.

Muitas críticas aos homossexuais são baseadas no trabalho com a prostituição ou atividades baseadas de alguma forma na sexualidade, no entanto muitos não optam, mas são levados a essas atividades pela impossibilidade de encontrar trabalho, seja pela recusa dos empregadores, seja pela pouca instrução.

Uma vida de bullying intenso nas escolas ao longo da infância e adolescência não faz dos estudos uma opção muito atraente. Conforme citado, apesar de não haver relatos diretos da vida de Jesús, sua falta de amigos e alguns diálogos indicam as dificuldades vividas na adolescência, que mal chegou ao fim.

Esse histórico do jovem, que é órfão de mãe, é desconhecido por parte de Angel, mas é possível indicar que existe certa preocupação paterna com o filho. Uma preocupação que se expressa de forma inaceitavelmente machista, de alguém que além de cair de paraquedas na vida de Jesús, ainda passou quinze anos isolado da sociedade.

Pouco a pouco percebemos que não se trata apenas de um caso de homofobia a ser repelido. Existe uma complexidade por trás dos personagens que força Jesús a buscar o amor paterno, que até então ele não conhecia, mas que valoriza a ponto de moldar sua vida para se aproximar de Angel.

O ex-boxeador, ainda que tenha atitudes inaceitáveis, tem mais problemas do que o primeiro contato com o filho pode demonstrar. Parece que a homossexualidade do filho não chega a ser um problema tão grade a ele, mas a preocupação gira em torno das dificuldades que o jovem enfrentaria. Provavelmente Angel tem o olhar viciado que impede de aceitar a sexualidade como algo individual e particular, que não deve influenciar em nada na vida social.

Profundo e sensível, Viva mistura críticas sociais indispensáveis com uma visão romântica, que sonha com soluções benéficas para aqueles envolvidos em situações que sequer deveriam ser encaradas como um problema. Diante das dificuldades econômicas, da falta de convivência e problemas de saúde, a homossexualidade de Jesus, cujo nome sem dúvida é proposital, sequer deveria ser considerada como fator relevante para Angel, que também não tem esse nome por acaso.


quarta-feira, 19 de julho de 2017

O cidadão ilustre (El ciudadano ilustre)

A literatura não cria apenas uma realidade, cria uma realidade para cada leitor. Indo além das páginas do livro, cada um cria uma imagem do escritor, de suas inspirações e do que tem de real na história narrada, independente de quanto o livro seja fantasioso.

Isso ajuda a entender a situação do personagem Daniel Mantovani (Oscar Martínez). O escritor fictício ganhou o prêmio Nobel e agora pode se dar ao luxo de selecionar de forma muito criteriosa os eventos que aceita participar. A ligação afetiva faz com que ele aceite o convite para voltar a Salas, sua pequena cidade natal, no interior da Argentina, onde receberá o título de Cidadão Ilustre.

Não é fácil corresponder às nossas próprias expectativas. Idealizamos um cenário perfeito e a realidade sempre fica distante da perfeição, se não soubermos dosar a frustração e aproveitar os fatos concretos, as lamentações do que poderia ter sido serão sempre maiores.

A tarefa de Mantovani é ainda mais difícil, pois além de suas próprias expectativas geradas pelos quarenta anos de distância da cidade, ele ainda encontrará toda a população local, cada um com sua esperança individual de ascensão através da visita do ilustre desconhecido, já que poucos haviam conhecido pessoalmente o escritor.

Os diretores Gastón Duprat e Mariano Cohn filmaram um roteiro original, mas a obra acaba ajudando a entender porque a frase ‘o livro é melhor que o filme’ é tão popular quando diretores optam por uma adaptação.

Assim como os moradores de Salas criaram uma realidade imaginária com a visita de Mantovani, alguns com a possibilidade de demonstrar seus afetos, muitos contando com uma carona na fama do compatriota, cada leitor de um livro cria sua própria realidade a partir das descrições literárias.

É impossível a qualquer diretor de cinema corresponder à expectativa dos leitores, pois até mesmo sua própria leitura será distorcida ao ser filmada, com atores e cenários que não são idênticos ao que foi imaginado.

Com essa analogia podemos entender as frustrações que a visita de Mantovani proporcionou. Diferente do que muitos esperavam, o escritor é avesso ao assédio e à notoriedade. Ele até abre exceções por um pouco de simpatia, mas o público é intransigente em relação ao que espera.

Uma desproporção notável fica por conta dos valores de cada um. É evidente que passando tanto tempo em grandes cidades, em contato com a cultura erudita e imerso em um universo cosmopolita, Mantovani tem pouco em comum com os cidadãos provincianos, que não são inferiores por conta dessa diferença, somente têm um estilo de vida condizente com a realidade que os cercam.

A estrutura mercadológica também tem seu peso no abismo cultural formado entre o escritor e seus conterrâneos. À população de pequenas cidades do interior só chega o que pode ser consumido, gerando lucro para a cadeia produtiva. Desta forma os cidadãos mais ricos possuem grandes carros, casas suntuosas e ostentam bens materiais.

Em contrapartida, Salas, ou qualquer outra pequena cidade longe de grandes centros, não possui cinema, teatro, livrarias, muito menos exposições periódicas de artes. As pinturas de gosto duvidoso feitas por moradores não poderiam ser diferentes, já que nem mesmo os grandes nomes da pintura desenvolveram suas técnicas sem referências clássicas.

O orgulho ferido de alguns moradores diante da frustração com algumas atitudes de Mantovani não vem somente pelas críticas do escritor, mas pela condição inusitada de quebra de tradições.

Cidades que são pouco maiores que povoados possuem hierarquia política bastante clara. Os donos do poder não estão habituados, portanto não aceitam em nenhuma hipótese, ouvirem algo contrário ao que esperam, vindo de alguém sobre quem a elite não tem controle.

Colocando a literatura, ainda que de forma inusitada, como ponto central do filme, os diretores instigam de forma leve e bem humorada algumas reflexões sobre o comportamento social, confrontando a distância entre um escritor consagrado, que integra o seleto grupo de vencedores do prêmio Nobel, e uma boa parte da população, já que os estereótipos explorados estariam presentes em vários outros locais.

Um escritor engajado costuma pensar em temas profundos, que retratem problemas sociais e questionamentos internos, mas romper a barreira elitista e fazer com que as obras cheguem ao público alvo imaginado pelo autor, não pelas livrarias, é um desafio a mais para quem busca seguir o árduo caminho da escrita.


terça-feira, 11 de julho de 2017

Luz nas trevas - a volta do Bandido da Luz Vermelha

Bandido da Luz Vermelha foi como ficou conhecido João Acácio Pereira da Costa. Na década de 60 ele entrou na casa de suas vítimas utilizando uma lanterna com luz vermelha e os assassinatos entraram para a história da literatura policial do país.

As tragédias, imediatas para as vítimas e posterior para o próprio João Acácio, chegaram ao cinema em 1968, na obra dirigida por Rogério Sganzerla. Sob a influência do cinema novo, Sganzerla apresentou uma crítica social em forma de sátira, que se tornou um clássico do cinema nacional.

Depois de 50 anos a história volta a ser contata nas telas, desta vez dirigida por Ícaro Martins e Helena Ignez, que recorreram à obra original e utilizam trechos de sons e imagens, sobretudo para enfatizar um ambiente caótico e perturbado.

Esta versão também não visa uma cinebiografia. A sátira e as metáforas são formas eficazes de indicar que excluindo algumas peculiaridades de João Acácio, como a luz vermelha que destacou seus crimes, a essência do caso se assemelha a tantos outros que juntos colocam o país entre os mais violentos do mundo.

Todos os países têm casos isolados de assassinatos que chamam a atenção, pela quantidade de vítimas, crueldade extrema ou peculiaridade no método adotado pelo criminoso. Porém aqui o Bandido da Luz Vermelha (Ney Matogrosso) tem sua notoriedade diluída no mar de presos de uma cadeia superlotada.

A atuação do artista que, apesar de sempre muito performático, fez carreira na música, é baseada em monólogos de um presidiário com ampla visão crítica, tanto do sistema prisional quanto da estrutura social na qual esteve imerso até a detenção.

Há quem critique a análise do histórico social de criminosos, alegando que nada justifica os crimes cometidos. De fato, a maioria das pessoas expostas desde a infância às mesmas privações passam a vida sem recorrer aos crimes. Portando seria reducionista alegar que todo o problema vem da desigualdade social.

Mesmo assim, é inegável que as pessoas reagem de formas distintas aos estímulos sociais que recebem. Muitos, como João Acácio, optam por arcar com as possíveis consequências legais e desfrutar os lucros de assaltos. A eventual morte de uma vítima pode ser somada a tantos corpos, nem sempre criminosos, que amanhecem nas favelas.

O sistema prisional vingativo e corrupto, que visa proporcionar ao detento a pior condição de vida possível, lucrando com propinas de quem tenta comprar um resquício de dignidade, vem dando provas históricas de sua ineficiência. O índice de reincidência, a criminalidade fora de controle e a criação de facções criminosas parecem ser fatores cuidadosamente despercebidos pelos que defendem tratamento desumano aos detentos.

De forma difusa, o filme dá uma versão social para a criação de um criminoso, que não quer roubar pela mera sobrevivência, mas por uma vida de extravagâncias almejada por qualquer um e que nada justifica ser restrita a uma pequena parcela da população.

Uma sociedade mais igualitária e consequentemente mais justa não deve ser buscada como forma profilática para eventuais crimes bárbaros. O sangue dos latrocínios, no Brasil, é a ponta visível de toda uma estrutura de violências cotidianas, geralmente tão tradicionais que sequer são identificadas como tal.

O título ‘Luz nas trevas’ é ideal para a proposta do filme. Foge do estereótipo e expande a ideia de retratar o caso específico do ‘bandido da luz vermelha’. Além de resgatar a atmosfera do primeiro filme, mesclando crítica social e fatos históricos através da sátira, Ícaro Martins e Helena Ignez dão continuidade ao trabalho anterior, com uma roupagem moderna, mas abordando temas ainda presentes em nossa sociedade, mesmo depois de meio século.

Talvez o filme de Rogério Sganzerla pudesse ser visto em sua época com um pouco de esperança. João Acácio havia acabado de ser preso, com uma condenação que garantia o teto de trinta anos de encarceramento. A sociedade poderia seguir em frente, livre do assassino que povoou o imaginário do país.

Hoje sabemos que o bandido da luz vermelha do filme mais recente é puramente ficcional. O culto, consciente e artístico personagem interpretado por Ney Matogrosso em nada se assemelha ao João Acácio que deixou a cadeia depois de trinta anos, com evidentes problemas mentais e assassinado poucos meses mais tarde.

A realidade, despida dos floreios da arte, segue nos apresentando apenas o lado ruim dos problemas estruturais da sociedade, retratados nos dois filmes. Seguimos reproduzindo as condições ideais para a formação de criminosos e exibindo ícones do crime, quando presos, como troféus de caça.


terça-feira, 20 de junho de 2017

A demora (La demora)

Como reagir diante de um grande problema, do qual não podemos fugir, mas para o qual não há saída fácil? Esse é o impasse da protagonista María (Roxana Blanco), com o agravante de ter que decidir sozinha o futuro de seu pai, Agustín (Carlos Vallarino), que com idade avançada já apresenta sinais da falta de memória.

O diretor Rodrigo Plá constrói sua história deixando claro que as dificuldades de María têm vários fundamentos relacionados com sua vida. Não se trata de uma mulher mimada que, sem o hábito de enfrentar problemas, opta por abrir mão de suas responsabilidades de forma imprudente e egoísta.

Mãe de duas crianças pequenas e afeitas ao avô, a protagonista não conta com a ajuda de nenhum outro familiar para cuidar de seu pai, que demanda cada vez mais atenção. É angustiante ver que o idoso começa a não reconhecer a própria filha, sabendo que a medicina ainda não tem nenhum tratamento eficaz contra a perda de memória.

Não bastassem as dificuldades pessoais de lidar com esse problema, a condição econômica é sempre um fator decisivo. María não tem como pagar por um bom asilo, muito menos arcar com os custos de uma cuidadora. Os personagens chegam ao ponto em que o ciclo da vida parece invertido.

É inevitável, sobretudo para as famílias de baixa renda, que crianças queiram coisas completamente fora do poder aquisitivo dos pais. Por mais que possam surgir lições pedagógicas sobre como lidar com o dinheiro e abrir mão de desejos inalcançáveis, é sempre incômodo aos pais frustrar o desejo dos filhos.

No filme a restrição econômica da personagem, que passa a ser responsável pelos cuidados ao pai, tem o agravante de não ser um luxo dispensável, mas uma demanda cada vez mais inadiável. Não há lição possível ao idoso que dá cada vez mais trabalho, ainda que sem a menor responsabilidade sobre isso.

Cabe à filha uma culpa psicológica, ainda que falsa, por não conseguir lidar com os problemas. Suas crianças acabam tendo a infância afetada pelas necessidades cotidianas. A menina, um pouco mais velha, mas ainda longe da adolescência, é incumbida de cuidar do irmão caçula e todos na casa acabam tendo que se desdobrar para que uma vida minimamente aceitável siga em frente.

Somos tentados a pensar que Agustín não ajuda no pouco que lhe cabe. O idoso se recusa a aceitar sua condição e se apega à consciência, ou ao menos à lucidez que ele acredita manter, para recusar as tentativas da filha de uma internação em alguma casa de repouso.

Na verdade ainda que a memória de Agustín esteja prejudicada, a ponto de esquecer o próprio endereço e começar a não reconhecer as pessoas mais próximas, é possível notar que ainda existem momentos de consciência que o fazem lamentar a atual condição.

Ter noção da própria decadência física e psicológica, sem poder fazer nada para reverter os sinais da idade, também é um grande peso para a própria pessoa, que tenta lutar contra o tempo e contra o próprio corpo para manter os mínimos resquícios de sanidade e até mesmo de dignidade.

Quando pensada de forma isolada, sobretudo diante das consequências exibidas pelo filme, a decisão tomada por María para tentar resolver o problema de uma forma menos sofrida beira a monstruosidade. Contando com a falta de memória recente do pai, ela o abandona requisitando o resgate de um albergue público – nada que o trailer não revele.

É evidente que entre todas as saídas que a protagonista poderia escolher, o diretor opta por colocá-la em uma condição criticável. Mesmo que sua fragilidade seja construída durante o filme, é inevitável nos colocarmos na mesma situação para depositarmos toda nossa empatia no velho Agustín.

Apesar disso, María não se mostra fria ou vingativa por uma vida de privações por parte do pai. Ainda que nada a livre totalmente do peso de uma decisão controversa e cruel, cabe a reflexão quanto aos limites psicológicos de cada indivíduo, levado a extremos tanto no campo afetivo quanto no aspecto econômico.

Independente de qual seja sua conduta, María é vítima de um sistema cruel, que a coloca entre a cruz e a espada, fazendo com que a opção por continuar mantendo o pai prive seus filhos de cuidados e atenção; enquanto tentar interná-lo, à revelia do idoso, provoque o próprio julgamento moral que irá acompanhá-la por toda a vida.


terça-feira, 13 de junho de 2017

Tanta água

Para o pai que não mora com os filhos, utilizar as férias para um passeio em uma estância termal parece uma ótima opção. Assim Alberto (Néstor Guzzini) parte com o casal de pré-adolescentes em busca de um estreitamento na relação com as crianças.

O imprevisto já aconteceu com boa parte das famílias que esperaram ansiosamente por uma viagem inesquecível nas férias: dias de chuva torrencial. A metáfora na história das diretoras Ana Guevara e Leticia Jorge se refere à limpeza, algo que mudará na vida dos personagens como um rito de passagem com a purificação da água.

A irritação típica e inevitável é o que rende as primeiras cenas de comédia. Não há ‘plano b’ que alivie o tédio de quem esperava por dias de diversão à beira da piscina e encara um quarto fechado, sem muitas opções de distração e sem uma mísera televisão para ajudar a passar o tempo.

Sendo o adulto responsável Alberto, poderia ter mais maturidade para lidar com a situação adversa, porém ele também é o principal encarregado de uma viagem bem sucedida. Não bastasse a frustração evidente pelo tempo chuvoso, Alberto percebe que os filhos já não são crianças que se entretém com qualquer coisa. O senso crítico parece deixar a situação incontornável.

Frederico (Joaquín Castiglioni), o filho mais novo, prefere fazer novos amigos e andar de bicicleta pela colônia de férias do que fazer visitas guiadas pelas usinas e fábricas da região. Ele não menospreza o esforço do pai, nem nega sua atenção. É somente um interesse na diversão imediata ao invés de um passeio em família que, apesar de repleto de boas intenções, não poderia ser mais divertido que brincar com outros de sua idade.

Já a filha mais velha, Lucía (Malú Chouza), começa a entrar na adolescência e qualquer que seja a situação já tenderia a se afastar do cuidado paterno. Aquele aparente tédio constante que ronda os adolescentes é compreensivelmente agravado pela chuva e pelas condições de uma viagem não muito atrativa.

Não temos muitas informações sobre a vida dos três personagens antes da viagem, mas sendo as férias uma oportunidade de aproximação, as descobertas podem ser frustrantes para todos os lados.

É muito natural que Alberto fique frustrado ao ver sua paternidade muito mais dispensável do que ele esperava, ficando irritado ao perceber que não conseguirá ser o provedor de felicidade que tanto gostaria de ser aos filhos. Não se trata apenas da viagem de férias. Alberto vive o momento em que se dá conta de que os filhos ensaiam os primeiros passos de independência.

A apreensão do pai também é justificável. Não basta se acostumar com a ideia de ver os filhos independentes, mas de medir as responsabilidades paternas em uma fase delicada, sobretudo quando Lucía já não quer andar de bicicleta com outras crianças, mas sair sozinha com pessoas desconhecidas.

Alberto não quer adotar o perfil linha dura, talvez influenciado pelo fato de passar pouco tempo com os filhos e não querer cultivar uma imagem negativa nas oportunidades que tem junto a eles, ao mesmo tempo, aos pais nunca é fácil equilibrar a liberdade concedida e o receio por conta da inexperiência dos filhos.

Diante do novo, cada um a seu modo, os filhos irão se machucar. É inevitável e necessário que isso aconteça. O desafio de Alberto, como de qualquer pai, é saber quando intervir para reduzir os danos. Não é tarefa fácil e cabe lembrar que a dificuldade também é grande para os filhos.

Assistimos ao filme com o olhar de quem já passou pela adolescência e consegue ver os problemas com a devida distância, porém Lucía começa a entrar em uma fase da vida em que ser rejeitada em um círculo social é uma situação inadmissível. Sem ter abandonado completamente a infância e ainda longe de uma maturidade para lidar com situações cotidianas, ainda que desagradáveis, o apoio do pai pode ser benéfico.

Entre erros e acertos Alberto tem o mérito de enfrentar suas inseguranças como pai e arriscar na tentativa de preparar os filhos para o mundo. Sua dedicação e boa vontade têm efeito em um círculo restrito e não existe controle total quando os filhos saem de casa. É um momento delicado em que os papéis, dele e dos filhos, ainda não estão bem definidos. Se os erros são inevitáveis, fica interessante abordá-los em tom de comédia.


terça-feira, 6 de junho de 2017

Éden

O diretor Bruno Safadi usa estereótipos bem conhecidos, sobretudo nas periferias das grandes cidades, para estruturar o enredo de seu longa metragem. A protagonista Karine (Leandra Leal) vive um drama conhecido por muitas jovens brasileiras, o de encarar o fim da gravidez sozinha, por conta do assassinato do namorado.

A ausência paterna, por morte, prisão ou simples abandono, compromete o planejamento familiar de várias formas, jogando sobre jovens mulheres, muitas ainda adolescentes, um enorme peso de responsabilidades individuais e familiares.

Em uma sociedade conservadora as igrejas veem nesse cenário um espaço para reduzir o impacto social das famílias desestruturadas ao campo moral, incluindo no fardo carregado pelas mulheres o peso da culpa. No filme esse discurso é realizado pelo pastor Naldo (João Miguel), na sugestiva Igreja Evangélica do Éden, o paraíso bíblico do qual a humanidade foi expulsa por conta de um pecado feminino.

No desenvolvimento social da humanidade a religião sempre teve papel de destaque no campo do conhecimento. São as primeiras tentativas de explicar os questionamentos do homem que deram origem à figura divina. Não por acaso o chamado ‘pecado original’ se dá com o consumo do fruto que tira do criador o monopólio do conhecimento.

Na igreja do Éden o pastor é o líder supremo, que fala em nome de Deus e atua como se fosse seu representante direto – a exemplo de tantos religiosos que parecem crer serem o próprio deus. A igreja oferece a cura para um mal que ela mesma cria, pois transforma condutas individuais em pecado e oferece a remissão dos mesmos.

É como se o criador, ao invés de expulsar em definitivo os pecadores do paraíso oferecesse uma segunda chance, simbolizada pelo batismo que lava as impurezas da carne. Para isso os fiéis devem voltar a viver sob a égide do conhecimento retido pela igreja.

O pastor Naldo impõe aos fiéis, sob o pretexto de se manterem longe do pecado em suas diversas formas, distância dos meios de comunicação, restringindo assim a visão de mundo que os frequentadores da igreja terão. Aquele que desobedecer e simbolicamente comer o fruto do conhecimento é quem historicamente trai a confiança divina.

Desta forma Naldo tenta acolher Karine e dissipar suas angústias em troca de sua fé e de todo o simbolismo que a maternidade proporciona, que também é trabalhado para criar uma imagem positiva da igreja, que será explorada em propagandas voltadas para atrair mais fiéis – e mais dízimo.

Para a Igreja, Eva é a protagonista do pecado original. O rompimento do monopólio do conhecimento proporcionou o castigo divino que agora os representantes da vontade divina, em uma interpretação de parábolas nada objetivas, afirmam ter a capacidade de reparar.

Como vemos no filme, a realidade é mais complexa do que as vontades de um pastor. Uma religião cujos dogmas foram pensados há mais de dois mil anos torna-se ideologicamente anacrônica diante de problemas contemporâneos de uma sociedade moderna.

Por mais que a Igreja nunca tenha deixado de influenciar em questões sociais, o monopólio do discurso é insustentável em meio a tantas fontes de informação e o domínio sobre os fiéis tenta se manter com o controle psicológico por parte de seus líderes.

O filme de Bruno Safadi é bastante sensitivo. Nem tudo é dito explicitamente e a expressividade de Leandra Leal facilita bastante a compreensão de nuances da personagem. Esta é uma forma bastante abstrata de comunicação que, tanto quanto uma metáfora bíblica, é aberta à interpretação de quem assiste.

O que difere a narrativa religiosa, abstrata e de ampla interpretação, da narrativa cinematográfica é que esta não restringe o público a uma versão oficial, cuja contestação implica em pecado passível de punição. As artes, mesmo quando relacionadas diretamente com a fé religiosa, sempre assumiram o protagonismo do questionamento.

Cabe pensarmos se Karine, diante de uma escolha, irá optar por voltar ao simbolismo do Jardim de Éden e aceitar a vida mantida pelas rédeas do Pastor Naldo, ou se a protagonista assumirá as consequências de seus atos, simbolizando uma Eva moderna que não hesita em pagar o preço pela liberdade.

Em tempos de extremismo religioso em evidência, a possibilidade de questionar dogmas e optar pela vida livre de rédeas é sedutora. Necessitamos mesmo de um Éden que nos dá um aparente conforto em troca do conhecimento?


quarta-feira, 31 de maio de 2017

A culpa do cordeiro (La culpa del cordero)

Depois de 35 anos de casados, Jorge (Ricardo Couto) e Elena (Susana Groisman) convidam os filhos para um almoço de domingo. Uma bela peça de cordeiro é temperada com antecedência, todos os detalhes são organizados e em um belo dia ensolarado todos os convidados – quase intimados – chegam para a reunião em família, que prometia uma grande revelação por parte dos pais.

Dois filhos e duas filhas harmonizavam até as nuances genéticas de uma família equilibrada, feliz e perfeita. Por um convívio mais intenso Elena faz questão de recolher todos os celulares e acompanha de perto aqueles que se afastam por muito tempo.

O rigor dos pais parece extremamente compreensível. Recém aposentado, Jorge tem todo o direito de ditar as regras de seu churrasco e Elena parece fazer jus à ideia de que para a mãe os filhos serão sempre crianças. Mas é quebrando esse estereótipo de família perfeita que o diretor Gabriel Drak constrói sua comédia com fatos cotidianos, estereotipados, mas bastante plausíveis.

É claro que aquela família estilo comercial de margarina não existe na vida real. Porém pequenos entraves, naturais e inevitáveis, não desconstruiriam os planos do casal de ter uma aposentadoria tranquila e ver a vida dos filhos bem encaminhada.

Apesar disso, aos poucos, vemos que a aposentadoria tranquila está ameaçada por vidas não tão bem encaminhadas. Aparentemente o excesso de zelo materno formou adultos individualistas, desde que não seja rompido o apoio, sobretudo financeiro, dos pais.

Ao longo do filme o conflito de interesses passa a ser mais forte do que qualquer laço familiar e quando o caos se mostra irreversível só resta a cada um tentar minimizar as perdas. É muito cômodo, em uma situação onde todos têm comportamentos criticáveis, agirmos individualmente. Nos afastamos um pouco do problema e com uma visão minimamente privilegiada fica fácil apontar os defeitos.

O que vai ficando cada vez mais claro é que a aparência de uma vida perfeita sempre foi mais valorizada que a conduta moral da família. Em nenhum momento os filhos, já adultos, se portam como responsáveis pelos seus atos. A preocupação é sempre de esconder determinadas ações, para fugir da bronca dos pais.

Curioso que mesmo sendo quatro irmãos com idades próximas, a cumplicidade esperada entre irmãos se manifesta, mas também o egoísmo de quem está habituado a encarar o mundo como um privilegiado. É uma atitude condizente com o comportamento de Elena.

Não que Jorge esteja isento de críticas e possa ser visto como uma vítima, afinal são 35 anos de casamento, ao longo dos quais a vida do casal poderia ter tido mais empatia, mas a matriarca se refere à família sempre no coletivo, inclui o marido e os filhos em sua imagem de vida ideal, sem nunca questionar se esses valores são realmente compartilhados ou desejados por todos.

A relação de falsa independência, que quer expor os próprios ideais, porém sustentados por outra pessoa, é evidente em Elena. Idealizar o futuro dos seus sonhos e envolver várias pessoas para que sua realização particular seja completa é tão natural para a personagem, que ela sequer percebe que eventualmente as pessoas podem ter outros planos, sem sentir segurança para frustrar as suas expectativas.

Talvez pouco pudesse ser feito para que o domingo de farsa não descambasse para a tragédia. Os nervos foram levados ao limite, naquele ponto em que extravasar é indispensável e o caminho não tem mais volta. Entretanto é possível pensar que se Jorge tivesse sido um pouco mais incisivo em suas insatisfações ao longo do casamento e se Elena não sacrificasse a realidade em prol de suas idealizações de vida perfeita, uma dialética poderia ter sido construída de forma mais sólida.

Em tantos anos de casamento é inevitável que apareçam frustrações dos dois lados. Ao longo da vida costumamos desenvolver maturidade para adaptar as expectativas à realidade. Nosso ideal de vida nunca será alcançado, pois é um mundo onírico e perfeito que nunca será plenamente materializado.

Admitir que nossas expectativas devem ser moldadas à realidade – o que não significa abrir mão completamente do que queremos – é uma forma de respeito com as pessoas com quem interagimos e que também têm suas expectativas alteradas de acordo com nossas ações. Negar as próprias responsabilidades costuma ser cômodo, mas não adianta por a culpa no cordeiro do almoço, que reuniu a família.


terça-feira, 23 de maio de 2017

A que distância (Qué tan lejos)

Este filme nos proporciona um resumo de viagem entre Quito, a capital equatoriana, e a cidade de Cuenca, ao sul do país. Cada personagem tem seu motivo particular para cruzar o país. Mais do que os cerca de 500 km de distância, o que separa as cidades naquele dia é uma paralisação nacional dos trabalhadores.

A diretora Tania Hermida diversifica as personagens, todas carregadas de simbolismo, trazendo vários elementos à trama, que aparenta ter mais intenção de despertar questionamentos do que oferecer um resultado pontual.

Na trama a espanhola Esperanza (Tania Martinez) visita o país sul-americano com o peso de ter nascido na metrópole. É evidente que nenhum espanhol ou português de hoje tem responsabilidade direta sobre o que seus antepassados fizeram ao longo de séculos de exploração na América Latina, porém é igualmente inevitável ver tantos problemas sociais com raízes na colonização.

Em contraponto à Esperanza vemos a protagonista que se apresenta como Tristeza (Cecilia Vallejo). A jovem, idealista e passional, não hesita em cruzar o país para impedir o casamento daquele que acredita ser o amor de sua vida. A princípio não é com bons olhos que ela vê a estabanada turista espanhola, que parece ser bem pouco politizada para seus padrões.

No caminho de ambas está a greve geral, sem prazo para acabar, que poderia adiar a viagem. Esperanza poderia não conhecer o país e Tristeza chegaria tarde demais para tentar evitar o casamento. A diferença, mais do que a meta da viagem, está na reação de ambas.

Esperanza não compreende muito bem a motivação dos indígenas responsáveis pela paralização. Ainda que não existam imagens das manifestações, a indicação de que ela é coordenada por indígenas deixa claro que o movimento é articulado nas forças sindicais de base. Ainda que os espanhóis não tenham posto em prática uma política de extermínio indígena, até hoje os descendentes diretos dos incas formam a camada mais pobre da região andina.

Já Tristeza tem uma consciência política muito mais ligada ao movimento grevista e as dificuldades que a greve impõe não são empecilhos suficientes para que a jovem deixe de apoiar a causa. Determinada e irredutível em seu objetivo, ela resolve fazer a viagem, mesmo que para isso tenha que pedir carona e levar, à revelia, Esperanza.

O trajeto serve para algumas conversas esclarecedoras entre duas personagens que passam a desfazer preconceitos criados pelas respectivas primeiras impressões. Além disso, a diretora aproveita para exibir algumas características do país. Tanto as qualidades quanto os defeitos. Infelizmente parece que as belezas naturais concentram as qualidades que o país tem a oferecer, enquanto a insegurança e os problemas sociais diversificam os pontos negativos.

Até mesmo uma simples carona, que pode facilitar a vida de viajantes em muitos lugares, no Equador e na maior parte da América Latina é algo a ser feito com muito cuidado e atenção redobrada no caso de duas mulheres.

Entre tropeços e avanços, no caminho a dupla conhece Jesus (Pancho Aguirre). Enigmático e profundo, o personagem uma síntese entre o lado politizado de Tristeza e a maturidade de Esperanza para as questões emocionais.

O ator errante que cruza o país com as cinzas da avó em uma urna acaba sendo a metáfora de guia, que mostra às novas amigas tanto o caminho físico até Cuenca quanto um caminho emocional, através do desapego material e da sabedoria prática de lidar com situações adversas da vida.

É possível encontrar no filme uma tendência de dividir o sentimento passional. Uma parte é mais egoísta e expressa pelo desejo de Tristeza de reatar seu relacionamento. Neste sentido a imaturidade da menina é logo compreendida por seus dois amigos mais experientes, que notam o equívoco ao mesmo tempo em que se compadecem com o sentimento da jovem.

Além disso, existe uma passionalidade que visa algo maior que o indivíduo, que também tem Tristeza como ponto central, pois mesmo tendo sua viagem extremamente dificultada pela greve geral do país, ela não somente apoia o movimento como é bastante didática ao explicar para Esperanza que a causa era justa.

Tanto no cinema quanto na vida, são frequentes as histórias de amigos que partem para uma viagem trabalhosa, que acaba abalando a estrutura das amizades. Isso deixa ainda mais interessante o sentido inverso, quando uma viagem inusitada e não programada acaba unido personalidades aparentemente divergentes.


quarta-feira, 10 de maio de 2017

A despedida

A visão de mundo que temos, além de muito particular, oscila ao longo da vida. Por vezes de forma tão gradual que sequer percebemos. Da adolescência em que doze horas de sono não são nenhum absurdo, passando pela maturidade em que a necessidade de estabilização pessoal e profissional traz inseguranças, atravessamos nuances comportamentais até que alguns chegam em uma fase presumivelmente final.

De repente o corpo mirrado passa a pedir uma fralda geriátrica para estancar a falta de controle dos esfíncteres, sair sozinho da cama demanda um esforço que questiona se aquilo é mesmo pertinente, o banho matinal deve ser sentado e com toda a atenção para que um mero deslize não resulte em uma queda fatal, a barba insiste em crescer ignorando a falta de firmeza das mãos que mal dão conta de empunhar a lâmina de barbear. Neste cenário a bênção da consciência intacta é amaldiçoada pela percepção das habilidades perdidas.

Contrariando o provável pouco tempo restante de vida, o corpo exige paciência monástica para sustentar um resquício de orgulho e se vestir sozinho. Essa é a tarefa repetida diariamente ao longo de noventa e dois anos e que agora reduz as expectativas do velho Almirante (Nelson Xavier).

Sair sozinho para tomar café na rua. Difícil imaginar o que passa pela cabeça de alguém que ao anunciar algo que qualquer criança pode fazer, desperta no filho – com razão – temor e receio. O que o personagem ilustra é algo muito comum em pessoas cuja idade compromete severamente as habilidades físicas.

Aquele antigo almirante, de passado incógnito, mas que inevitavelmente prezava pelo físico militar, mal tem condições de caminhar pelas calçadas e ruas esburacadas. Caminhar sozinho é uma opção. O filho poderia acompanhá-lo, mas a necessidade é de provar a si mesmo que ainda pode ser independente. Como convencer um almirante de que agora nem à padaria ele pode ir sozinho?

Driblar os buracos no caminho, em uma cidade excludente para quem tem alguma dificuldade de locomoção, mostra quanto o descaso do poder público pode tornar ainda mais difícil a vida daqueles que merecem atenção direta e indireta do Estado. Seja através de serviços e benefícios, seja através de uma cidade estruturada, a atenção aos idosos é uma mínima retribuição aos serviços prestados ao longo da vida.

Diante da presunção de um fim próximo algumas necessidades podem ganhar peso, visando não deixar pendências. O antigo desafeto deve ser procurado, não para realçar os desaforos, mas para admitir os erros, pedir perdão e selar a paz com um abraço fraterno. Pouco importa o que houve no passado, talvez até mesmo o erro tenha sido bilateral, mas pode ser assumido sozinho, desde que isso sirva para tirar dos ombros debilitados o peso simbólico de uma culpa.

A despedida não estaria completa sem a presença de um amor. A relação com a amante, a enigmática Fátima (Juliana Paes), poderia render várias análises, explorando a questão patriarcal e os problemas envolvendo um relacionamento com idades tão díspares. Porém esse não é o objetivo do diretor Marcelo Galvão. 

Fátima não demonstra apenas carinho, afeto e respeito em relação ao amante, mas também respeito à sua condição física e consideração com seu esforço pela independência. Diferente dos familiares, ela não o trata como um objeto de cristal fino, mas como um homem debilitado pelos mesmos anos que proporcionaram conteúdo intelectual.

O impacto das situações extremas do filme, que é baseado em uma história real, pode despertar reflexões sobre temas recorrentes no contato entre idosos e pessoas mais jovens. É formado um conflito de interesses quando um lado quer preservar a integridade física de quem já está debilitado e outro quer lutar contra os efeitos adversos da idade.

Mais do que bater de frente com quem supostamente é teimoso e inconsequente, o filme mostra ser válida a tentativa de se colocar no lugar do outro, valorizando suas pequenas conquistas. Ao Almirante, e a tantos idosos em situação semelhante, o corpo já impõe regras suficientes.

Recusar um cuidado paternal que, invertendo a lógica, passa a vir dos filhos, não é teimosia nem falta de reconhecimento, mas sim uma tentativa de resistir e preservar a dignidade do que resta a ser vivido. Quando só a consciência está intacta e isso é encarado como algo ruim, ninguém tem o direito de privar o indivíduo até mesmo de suas próprias decisões.


* Eu estava na metade deste texto quando soube da morte do ator Nelson Xavier. Fica minha singela lembrança.


terça-feira, 25 de abril de 2017

O silêncio do céu (Era el cielo)

O diretor Marco Dutra fez uma escolha interessante ao inserir em seu longa um personagem roteirista. Num filme em que, conforme o título indica, o silêncio prevalece, a construção dos personagens e de suas complexidades ajuda a dar ritmo para o clima tenso e difícil de ser encarado.

Uma das formas de filmar uma história é construindo personagens que quebrem a expectativa, desta forma – sem nenhum spoiler já que está no trailer e a cena abre o filme – a protagonista Diana (Carolina Dieckmann) sofre um estupro. Entre as inúmeras formas que cada vítima vivencia e reage a esse crime, Diana opta pelo silêncio.

Aqui cabe uma ressalva. Independente de como qualquer filme aborde o estupro e mesmo que cada pessoa tenha sua forma de reação, uma violência deve ser denunciada às autoridades. Por mais difícil, constrangedor e doloroso, o próprio filme indica a importância das primeiras horas após o ato, tanto para medidas jurídicas quanto para os exames necessários.

É compreensível que Diana tente seguir a vida como se nada tivesse acontecido. Existem fatores sociais que fazem algumas vítimas de estupro tentar ocultar o caso. A vergonha, o medo, o machismo que historicamente tenta culpar a vítima, o receio quanto à reação das pessoas próximas, etc.

A particularidade é que Mário (Leonardo Sbaraglia), o roteirista e marido de Diana, viu parte da cena. Só não teve tempo de reagir nem atitude de falar abertamente sobre o fato. Aderiu ao silêncio da esposa, porém sem a menor pretensão de seguir a vida como se nada tivesse acontecido.

Diana é a única vítima da história. Essa observação poderia ser desnecessária, mas não podemos esquecer que durante muito tempo o estupro era visto como um crime contra a honra do marido. Claro que Mário não seguirá sua vida normalmente e às pessoas próximas também se abre um leque de sentimentos e reações diante de um estupro, porém nem toda reação é justificável.

Parece existir um pacto silencioso entre o casal, no qual cada um busca indícios para decifrar sentimentos e mesmo uma construção de histórias paralelas, que se aproximam pelos fatos e se afastam pela vivência.

Em outras situações o silêncio pode ser interessante em uma relação. O mistério, a imaginação, as várias formas de expressão que podemos descobrir na ausência das palavras pode tornar o contato diário mais instigante e aumentar a cumplicidade de quem é capaz de trocar longas frases por um olhar. Restringir toda a comunicação à fala é um grande passo rumo à monotonia.

Por outro lado, restringir todas as reações da vida conjugal ao silêncio é um convite às interpretações, que quando seguem o exemplo e se mantêm em silêncio formam uma bola de neve. Algumas palavras seriam esclarecedoras, dialéticas para que ambos compreendessem um pouco mais sobre o que aconteceu e até mesmo sobre os próprios sentimentos.

A proteção oferecida por Mário é extremamente bem-vinda. Da menor injustiça à maior violência, qualquer vítima quer o amparo de alguém disposto a oferecer abrigo. O problema é que a tal honra masculina, que diferente do medo só tem amparo em padrões sociais, também grita no silêncio interno do marido.

Passado o estupro, as violências particulares se expressam de forma silenciosa e simbólica. Várias vezes os cactos cultivados na casa ganham notoriedade. A fragilidade de uma planta inerte contrastada com o poder de dano de seus espinhos sintetiza as tensões entre personagens.

Em aparente tranquilidade, todos no filme estão à beira de um ataque de nervos e prestes a utilizar seus espinhos contra qualquer toque. O silêncio do céu, explorado em vários planos longos e sem nenhuma trilha sonora, é complacente com os personagens silenciosos, mas não oferece alternativas.

Até mesmo o roteirista, habituado a buscar alternativas aos seus personagens e a pesquisar na realidade as características que serão utilizadas na ficção, parece não encontrar nenhuma alternativa racional que dê vazão ao turbilhão de sentimentos silenciados, mas nunca controlados.

Os medos, as angústias, as dúvidas e tantos outros sentimentos são abordados de formas diversas pelo cinema, aqui o diretor opta pelo silêncio, que parece tão simples, tão contido, mas oferece as maiores complexidades. Dependendo do contexto pode ser sedutor e misterioso, mas diante da ação e reação de uma violência acaba sendo acima de tudo perigoso.


terça-feira, 18 de abril de 2017

Cordeiro (Lamb)

Dirigido pelo etíope Yared Zeleke, este longa cumpre a função de mostrar um pouco de seu país de origem ao mundo. Geralmente reduzido à seca e à produção de maratonistas, a Etiópia é mais um país associado à África de forma genérica, com suas particularidades ignoradas e perdidas em meio à generalização.

Alguns detalhes são exibidos no filme através do pequeno protagonista Ephraïm (Rediat Amare), que em um roteiro não muito diferente de algumas histórias brasileiras é obrigado a fugir da seca que matou sua mãe, mudando para a casa da família paterna com sua ovelha Chuni, enquanto seu pai procura emprego em uma cidade pretensamente mais promissora.

Apesar de lembrar a história de ‘Vidas secas’, a ênfase do filme não está no sofrimento da jornada, que aqui é feita em um ônibus precário, porém mais cômodo que a peregrinação dos nordestinos. O que chama a atenção no país africano é o forte laço com as tradições e a ausência da infância como estamos habituados a ver por aqui.

Ephraïm acaba de perder a mãe e parece não ter espaço para viver seu luto. Em pouco tempo passa a morar com parentes que mal conhece, com a ameaça de que sua ovelha será abatida para uma comemoração religiosa e com sua afeição pela culinária censurada pelo tio, pois cozinhar é uma tarefa exclusivamente feminina segundo os costumes locais.

É compreensível que em meio a tantas hostilidades o menino saia do ambiente rural onde mora a família e chegue ao mercado da cidade, um conglomerado de comércio realizado à céu aberto. As outras crianças que poderiam significar um pouco de empatia e pertencimento a um grupo de comportamento semelhante ao seu acabam refletindo a violência e hostilidade de uma sociedade reduzida à luta pela sobrevivência.

Ao longo do filme percebemos não haver atividades lúdicas para os personagens. Os adultos se diferem pela autoridade exercida, mas todos parecem ter como único objetivo encontrar meios de subsistência. Para isso o trabalho começa ainda na infância – pois por mais baixa que seja a remuneração, qualquer migalha pode ajudar – e a religião que impõe tantos valores não é um empecilho para tentar um casamento arranjado para a filha adolescente.

Com tanta hostilidade é compreensível que Ephraïm faça de tudo para voltar ao vilarejo de onde veio. A subsistência de uma vida sem propósito não parece nada atrativa e como se isso já não fosse absurdo, sua única fonte de afeto vem de uma ovelha cuja vida deve ser defendida e seu apreço pela culinária – que o faz lembrar da mãe recém falecida – é menosprezado.

O estilo de vida que é evidenciado através do protagonista se estende aos demais personagens. É perfeitamente compreensível que a diferença entre Ephraïm e as demais crianças do mercado, que formam uma espécie de gangue mirim, seja a tênue ausência de uma referência mais afetiva, que pode vir da mãe ou de ao menos um animal de estimação, e o comportamento rígido e inflexível dos adultos seja a reprodução do que vem sendo passado através de gerações.

Mais do que olhar para cada personagem do filme de forma isolada, cabe pensarmos no que poderia surgir de um ambiente tão hostil e fechado, onde o atendimento médico é restrito aos que têm dinheiro e o estudo é um luxo, ou mesmo um mal a ser combatido pelos pais.

O que emerge de uma sociedade em que, a despeito de viver na modernidade, as crianças seguem coibidas de ter uma infância dificilmente será diferente do que vemos no filme. Ephraïm parece ter o destino dos adultos que o cercam. Deve crescer rápido, chegar à maturidade sem passar pela juventude e provavelmente envelhecerá antes dos trinta.

É inadmissível que os direitos mais básicos, desde a subsistência vinda da água e da comida até a moradia digna e o acesso à educação siga vetado a uma parcela da população. Não há mérito ou ausência de esforço pessoal que justifique a condição exposta no filme e vivida em tantas outras partes do mundo, inclusive aqui, no Brasil, do outro lado da rua do condomínio fechado.

A história de exploração dos povos africanos é antiga, constrangedora e revoltante. Filmes como esse vêm nos lembrar que essa exploração não ficou no passado. Segue fazendo vítimas cotidianas, que mal têm direito a um grito de revolta.


terça-feira, 4 de abril de 2017

Huacho

Com o fim da Segunda Guerra e o desenvolvimento da tecnologia que os novos tempos de paz proporcionaram às grandes potências, a população mundial passou a migrar do campo para as cidades. Em pouco tempo as cidades passaram, pela primeira vez na história, a concentrar a maior parte da população, relegando ao campo poucas famílias que resistem à tecnologia e aos grandes latifúndios.

Este longa do diretor chileno Alejandro Fernández Almendras mostra através de estereótipos reunidos na mesma família as dificuldades da vida no campo em uma sociedade majoritariamente urbana, que está cada vez mais imersa no modo de produção industrial e que não percebe as diferenças entre o ritmo das cidades e a vida no campo.

Distante do mercado financeiro e suas ‘commodities’, Clemira (Clemira Aguayo) segue produzindo queijos artesanais, a despeito da idade avançada, e deve negociar sua mercadoria na beira da estrada, com motoristas que não costumam levar em conta a variação do preço do leite ou a diferença de um produto artesanal. Estamos tão habituados com uma indústria que produz toneladas de queijos, que sequer paramos para pensar em como a manufatura ganha em qualidade, sendo justo um preço mais alto.

Clemira já não tem grandes aspirações econômicas. A velha senhora quer vender seus queijos para ajudar na renda da família. Na geração seguinte à dela está sua filha Alejandra (Alejandra Yañez), cujo contato com as pessoas da cidade é maior por trabalhar diretamente com o turismo.

Tradicionalmente a mão de obra no campo não é tão especializada quanto na sociedade industrial. As atividades são realizadas conforme a necessidade, por quem estiver apto naquele momento. Desta forma Alejandra é faxineira em uma espécie de trabalho híbrido entre campo e cidade. O local onde trabalha recebe turistas dispostos a conhecer um pouco da vida do campo, levando inconscientemente a ideia de exploração do trabalho.

O consumo urbano pode ficar distante da geração de Clemira, mas Alejandra não quer abrir mão de suas vaidades, independente de qual seja sua função ou como será recebida por conta do cuidado com que se arruma para o trabalho. Uma possível tendência de censura ao seu consumo deveria esbarrar no fato de que seu salário pode ser gasto da maneira como ela achar melhor, pois independente de onde more, qualquer pessoa deveria ser remunerada com um valor que possibilite mais do que o consumo de necessidades básicas.

O passo seguinte da transição entre campo e cidade é feito através de Manuel (Manuel Hernández), o filho de Alejandra, que ainda não trabalha, mora com a família na zona rural, mas frequenta a escola na cidade simbolizando o preconceito que ainda existe em relação àqueles que moram no campo.

Longe do romantismo idealizado, a escola costuma ser um ambiente bastante hostil, sobretudo aos que sofrem diversos tipos de violência não coibida pelos profissionais de educação. Como podemos ver no filme, Manuel só quer fazer parte do grupo de crianças de sua idade, mas seu acesso é vetado pela origem distinta. 

Corroborando a ideia de uma pessoa simples e inocente por vir do campo, na verdade a distinção se dá pela violência da exclusão, que pode parecer algo menor e passageiro, porém com potencial devastador para o indivíduo, dependendo de como o tratamento discriminatório será trabalhado ao longo da juventude.

Fechando o ciclo da família o diretor volta à primeira geração através do patriarca Cornelio (Cornelio Villagrán). Seu papel ganha destaque diante da notoriedade da reforma da previdência, debatida de maneira superficial. Apesar de estar em um filme chileno, o personagem pode representar inúmeros trabalhadores rurais brasileiros.

Não bastasse a idade avançada que já deveria garantir a qualquer um a tranquilidade do dever cumprido com a sociedade, Cornelio dedicou a vida ao trabalho pesado do campo e segue oferecendo o corpo cada vez mais fragilizado às tarefas difíceis como a construção de cercas.

A família retratada nas telas proporciona reflexões a respeito das políticas públicas, que buscam um padrão social completamente excludente da realidade rural. Não bastasse a concorrência desigual de latifúndios mecanizados, que produzem muito mais e não empregam quase ninguém, ainda devem enfrentar a legislação voltada ao estilo de vida urbano.

Isso não significa que a vida na cidade seja fácil ou que a injustiça seja responsabilidade direta daqueles que nunca tiveram nenhum contato com a população rural, mas as diferenças expostas no filme deveriam ser consideradas com mais atenção e menos preconceito, sobretudo por quem as conhece somente pelo recorte de um filme.


terça-feira, 28 de março de 2017

Chatô - o rei do Brasil

Condensar uma biografia na duração de um filme não é tarefa fácil, sobretudo quando o biografado foi uma pessoa influente e sua história se confunde com vários aspectos do país, como é o caso de Assis Chateaubriand, interpretado por Marco Ricca.

Baseado na biografia esmiuçada de Fernando Morais, o diretor Guilherme Fontes optou por dar ênfase na relação dos canais de comunicação de Chateaubriand com o presidente Getúlio Vargas, utilizando recursos lúdicos para guiar as inúmeras faces do protagonista, como o julgamento fictício que traz como argumentos de acusação e defesa os fatos vividos pelo protagonista.

Além das inúmeras dificuldades que envolvem a produção de um filme, Chatô contou ainda com problemas judiciais e processos que atrasaram bastante a produção. Tudo isso acabou fazendo com que o lançamento do filme coincidisse com um momento extremamente tenso da política nacional, que nos remete aos entraves vividos na era Vargas.

Fica claro o quanto é antiga a relação promiscua entre imprensa e governante. Com personalidade bastante destoante dos círculos sociais que frequentava e tendo os bastidores retratados no filme, Chateaubriand não costumava usar eufemismos para exaltar o peso dos anunciantes não somente na economia do jornal, mas também no conteúdo e viés das matérias publicadas.

Igualmente tendencioso em relação à política, é notável que não haja decisão tomada em um grande veículo de comunicação que não seja amparada por uma intenção, cuja eventual nobreza não reflete nada além do interesse do proprietário do jornal. Qualquer candidato a cargo eletivo que negue ser político não faz mais do que ocultar dos eleitores as alianças firmadas por trás das manchetes de jornal. Isso já ficou claro em meados do século passado.

Mas Chateaubriand não se resumia a ligações espúrias com o governo. Amigo próximo dos artistas responsáveis pela semana de arte moderna, realizada em 1922, havia um lado inovador e revolucionário no magnata de aparências contraditórias e faro para os investimentos.

O problema é que suas contradições não se restringiam ao aspecto privado de sua vida. Os caprichos do magnata também atingiam em cheio a forma e o conteúdo de seu jornal. Neste os entraves com anunciantes tinham repercussão na esfera privada e qualquer irregularidade deveria ser investigada neste sentido. É na esfera pública que a arbitrariedade de parcerias atinge diretamente a população.

O direito à informação não pode ser refém de interesses do jornal, nem da amizade baseada na troca de favores entre governante e empresário do setor de comunicações. Atualmente os proprietários de grandes jornais do país – podem ser contatos com apenas uma das mãos – são mais discretos e cuidadosos para que os problemas pessoais não manchem a imagem empresarial.

Diante de tantos escândalos políticos seria difícil um fato inesperado vindo do Planalto, mas ainda assim a disputa pelo amor da primeira dama não é um fantasma que ameace a relação presidencial com a grande mídia. Atualmente a ligação é mais sólida e formal, com concessões muito bem selecionadas e diversos deputados vinculados diretamente a redes de rádio e tevê.

A estrutura frágil que unia mídia e governo nos tempos de Chateaubriand e Vargas foi muito bem lapidada por seus sucessores, de forma que questões pessoais sejam devidamente blindadas e os benefícios dessa relação de mutualismo político siga sendo vantajosa para as duas partes e um consequente entrave para a população, que segue com um viés tendencioso do que é noticiado.

Uma possível solução para ao menos reduzir o caráter tendencioso do que é ou não divulgado sobre políticos seria o já proposto controle social da mídia. A solução é convenientemente divulgada como censura por jornais tão isentos quanto Chateaubriand, interessados em manter a atual liberdade de concentrar o poder nas mãos de poucos, divulgando o que é interessante aos jornais e aos políticos que não ameaçarem o atual quarto poder formado pela mídia.

O que, não por acaso, é omitido pelos setores de comunicação é que a mídia é socialmente regulada nos principais países do mundo. Talvez a única grande democracia que permita grandes blocos formados por rádio, tevê, jornal e portais de internet unificados nas mãos de um único proprietário seja mesmo o Brasil. É possível que seja uma característica temporária, não pela dissolução dos monopólios midiáticos, mas pelo fim da democracia, que desde o impeachment apoiado e estimulado pela grande mídia, anda mesmo por um fio.


terça-feira, 14 de março de 2017

No fim do túnel (Al final del túnel)

Neste thriller o diretor Rodrigo Grande utiliza alguns recursos clássicos de narrativa, porém sem deixar que com isso seu trabalho fique previsível. O enredo se desenvolve em ambientes fechados, muitas vezes claustrofóbicos e a restrição de movimentos parece contribuir para que o fôlego siga a mesma opressão das situações tensas envolvendo as personagens.

O protagonista é Joaquín (Leonardo Sbaraglia), um cadeirante que vive sozinho em uma grande casa, onde trabalha consertando computadores no porão, com um elevador tem acesso ao térreo em que ficam seus aposentos e resolve anunciar um quarto para alugar no terraço, já que o único acesso é por uma escada.

Todo seu sossego, que até então parecia excessivo, é quebrado quando o quarto é alugado por Berta (Clara Lago) e sua filha de seis anos. O interesse da moça pelo quarto é tão grande que chega a ser suspeito e sua personalidade explosiva e extrovertida retira definitivamente Joaquín de sua tranquilidade, com o personagem se refugiando no porão para um pouco de paz.

É no silêncio, em companhia de seus inseparáveis cigarros, que o protagonista resolve analisar com mais cuidado os barulhos estranhos vindo da casa ao lado. Para sua surpresa trata-se de uma quadrilha cavando um túnel, que passará por baixo de sua casa até o cofre do banco ao lado. Para seu estarrecimento Berta é namorada do líder da quadrilha e seu desespero para alugar o quarto era uma necessidade de vigiá-lo e ter a certeza de que ele não seria um empecilho ao roubo.

A partir dessa descoberta o filme começa a surpreender e a prender cada vez mais a atenção. Joaquín poderia simplesmente fazer uma denúncia anônima, que acabaria com qualquer risco e o levaria de volta a sua vida pacata, porém ele é um personagem que unifica os conceitos de herói e anti-herói.

Desde o romantismo estamos habituados com a valentia de homens com moral ilibada, que no enredo em questão não só impediriam o roubo ao banco como livrariam a bela moça do bandido. O protagonista do filme já quebra esse estereótipo com sua limitação física, que não impede mas dificulta suas ações. Além disso, não há um dever moral em sua tentativa de intervir no roubo, pois sua intenção é utilizar as informações obtidas através da espionagem para tirar proveito do trabalho duro executado pelos bandidos.

Parece não ser somente a recompensa financeira que motiva Joaquín, mas principalmente a possibilidade de, mesmo na condição de cadeirante, participar de alguma ação grande e complexa, que exige sua astúcia e inteligência para driblar as dificuldades de locomoção.

Elementos bastante sutis ao longo do filme sugerem também que a presença da mãe com a filha pequena remete o personagem a sua própria família, cuja perda provavelmente está ligada à sua deficiência. Neste sentido sua atuação nos remete mais diretamente ao herói romântico, que sonha em se aproximar de Berta como certa continuação de sua vida pré-cadeirante.

Todo o plano complexo de um túnel que termina no piso do cofre do banco nos faz lembrar de crimes históricos, frequentemente retratados no cinema, o que dá grandiosidade à trama. Os ambientes fechados e opressivos não tiram dinamismo da história e o destaque fica para a necessidade do intelecto para atuar de forma precisa no verdadeiro jogo de nervos que se forma.

O diretor trabalha muito bem a ideia da sofisticação de um crime, que o torna muito maior do que uma simples contravenção a ser combatida e punida. É o gênero policial que mostra a estratégia aliada à brutalidade, capaz de articular detalhes minuciosos de um roubo a banco com punições severas ao que for considerado uma traição por seu mentor.

Entre muitos filmes argentinos que ganham destaque pelo engajamento político e abordagem eficiente de causas sociais, ‘No fim do túnel’ mostra que a qualidade também pode vir de ficções que trazem questões políticas de forma muito mais reticente.

Um filme muito mais voltado ao entretenimento, mas que nem por isso deixa de lado a tradição de boas produções cinematográficas. Retratar uma contravenção fazendo com que esta seja quase uma obra de arte, misturando papéis de herói e vilão para mostrar que os melhores personagens também têm interesses pessoais e não estão isentos de uma crítica moral não é uma tarefa fácil, mas quando bem executada oferece ótimo resultado.


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