terça-feira, 10 de outubro de 2017

Karen chora no ônibus (Karen llora en un bus)

Uma mulher jovem e bonita, casada há dez anos e que tem como principal atividade cuidar da casa e do marido. Durante séculos a sociedade martela esse mantra como meta de vida feminina. É o caso da protagonista Karen (Angela Carrizosa), que tem como efeito colateral desta vida limitada se sentir feia e velha, tendo aparentemente passado pouco dos trinta anos.

O diretor Gabriel Rojas Vera não dá muitos detalhes sobre a vida de casada de Karen. Não precisa. O roteiro está ao alcance de qualquer um, recheado de exemplos reais de mulheres que se casaram jovens e abriram mão de uma vida profissional, não fizeram muitas amigas, amigos nem pensar, e se dedicaram para o matrimônio.

Um belo dia todo o acúmulo de mágoas vem à tona. Não é que Karen não está mais feliz depois de uma década de casada. Na verdade a felicidade não passou de um breve conto de fadas, substituído por um marido que, mesmo não conhecendo o termo, pratica o chamado “gaslighting”, um abuso psicológico.

Uma característica bastante comum nos relacionamentos como o de Karen é que os esforços para agradar o marido não são reconhecidos, mas retribuídos com críticas e humilhações. Com uma vida reclusa e sem referências que auxiliem a personagem a perceber os abusos, ela acaba se convencendo de que não sabe fazer nada direito, é feia, inútil e passa a se sentir grata ao homem que ainda a quer.

Quando ela finalmente decide pedir o divórcio passa a sentir os efeitos de uma vida dedicada a outra pessoa. Com pouco dinheiro e sem experiência profissional, Karen precisa entrar em um mercado de trabalho predatório, repleto de contradições, como exigir experiência e juventude em níveis incompatíveis com a maioria das pessoas.

É incômodo ver a personagem alugar um cortiço e batalhar para reerguer a vida, enquanto o ex-marido veste o terno e vai para o escritório. Seria compreensível que em uma situação tão adversa Karen voltasse para casa. Seria cômodo, se isso acontecesse, julgar sua atitude e insinuar que ela voltou para a exploração do marido por que quis.

No cortiço a protagonista faz amizade com Patricia (María Angélica Sánchez), um tipo de antítese da vida que Karen sempre teve. Ainda que com o estilo de vida bastante distinto, Patricia também expõe a exploração feminina por parte dos homens.

Com um discurso forte de quem já foi enganada por vários homens e não quer repetir os mesmos erros, Patricia não demora a demonstrar fragilidades e carências presentes em qualquer pessoa.

Consciente dos problemas latentes em relacionamentos com homens casados, agressivos ou parceiros eventuais, o problema de Patricia não está em sofrer uma desilusão. Isso está no caminho de qualquer pessoa. Porém o machismo faz com que seus parceiros possam voltar para a esposa, ameaçá-la e fazer com que sua situação sempre seja mais dolorida.

Karen estranha a vida tão diferente da nova amiga, mas não demora para que a sororidade, a compreensão feminina diante da exploração, tome o lugar do estranhamento e passe a haver uma troca entre as personagens. Uma possível censura dá lugar à união entre mulheres que sabem da importância de uma mão amiga nas horas difíceis, por vezes perigosas.

Karen chora no ônibus. Não é somente no título. A personagem de fato inicia o filme em lágrimas e é bastante simbólico que isso aconteça em um coletivo. Ela já não tem como segurar o choro reprimido ao longo de dez anos. Não importa se está cercada por desconhecidos, até porque já nem tem um quarto particular. No filme colombiano cabe o verso da canção brasileira ‘lágrimas por ninguém, só porque é triste o fim’.

O ônibus simboliza uma viagem. Não se trata de subir em um ponto e descer no outro, mas uma viagem sem volta, que abandona uma vida de submissão e falta de reconhecimento para desembarcar em um futuro tão incerto quanto promissor.

Como qualquer viagem a um lugar desconhecido, esse ônibus metafórico passa por caminhos difíceis, em que a opção pelo embarque é questionada, mas a sensação de chegar a um lugar muito melhor do que aquele que ficou para trás é valorosa. Uma pena que nem todo mundo consegue fazer esse tipo de viagem.


terça-feira, 26 de setembro de 2017

Neve Negra (Nieve Negra)

A paisagem inóspita de neve permanente da Patagônia parece ser o retrato das relações familiares dos irmãos Marcos (Leonardo Sbaraglia) e Salvador (Ricardo Darín). Dois desconhecidos, cujo laço de sangue só proporciona uma aproximação forçada e indesejada.

Marcos só quer convencer o irmão a vender as terras da família. Com uma proposta irresistível de uma mineradora e a necessidade de dinheiro para cuidar da saúde da irmã, a venda parece o melhor caminho. Ao menos até conhecermos a história que marca a vida da família.

O diretor Martin Hodara trabalha o suspense da história e joga com as informações para guiar os espectadores a favor ou contra determinado personagem. O conceito de mocinho e bandido está longe de ser suficiente para compreender a trama que ronda aquelas terras distantes.

O ponto central é Juan, uma espécie de protagonista inexistente, pois é o irmão morto ainda criança por um tiro, consensualmente acidental, oculto pela versão oficial de ter sido soterrado por uma avalanche.

Apesar da vida naquelas terras cobertas de neve ser dura, depender da caça e não oferecer conforto é ali que Salvador se sente em casa. Existe o vínculo afetivo, a proximidade com as origens e o hábito de se manter longe da sociedade, alimentando teorias sobre a tragédia familiar acerca de Juan.

É bem comum propriedades familiares gerarem divergências quanto à partilha da herança. Nesse caso ainda tem o forte laço com o passado que pesa na decisão dos envolvidos. Para complicar ainda mais a trama, não é possível dividir as terras e vender somente a parte de Marcos. Para a mineradora, só o terreno completo é negociável.

Com exceção das particularidades trágicas da família do filme, a história é um plano de fundo interessante para pensar os conflitos familiares por conta da partilha de bens. Não há uma fórmula exata para lidar com os conflitos de interesse e é natural que cada uma das partes envolvidas defenda seu ponto de vista.

Os membros da família seguem vidas distintas e o futuro da propriedade pode causar conflitos, como a recusa de Salvador em vender as terras, independente do valor oferecido, e o desejo de Marcos de utilizar o dinheiro para facilitar sua vida na Espanha. Não dá para dizer que um está certo e o outro errado, ao menos do ponto de vista material.

O apego sentimental à propriedade deixada pelos pais pode variar entre os irmãos e o interesse em vender um bem material para que o dinheiro seja utilizado de forma mais prática não indica algo ruim. Não é o apego de Salvador à terra que nos permite afirmar sua maior ligação afetiva com os valores familiares. De uma maneira própria Salvador pode ser mais egoísta que Marcos em sua decisão.

Um ponto que não chega a ser central na trama, mas mesmo com leve indicativo merece destaque é uma mineradora estrangeira reduzindo todas as tensões e questões familiares enraizadas no local à cifra milionária oferecida aos proprietários.

A pretensa lei do livre mercado inclui um fator extra nos conflitos familiares, que acaba reduzindo tudo a uma cifra. A propriedade familiar, que muitas vezes chega a ser defendida como o fator que une a família em torno de um bem comum, acaba se tornando o retrato da divergência.

Não que as empresas que façam a oferta de compra tenham alguma responsabilidade direta pelas divergências familiares, mas a impessoalidade com que a transação comercial é dirigida acaba acirrando conflitos de forma desnecessária e reduzindo os fatores envolvidos no problema a uma quantia em dinheiro.

Para usar o exemplo do filme, caso não houvesse a proposta pelas terras da família, Marcos e Salvador não fariam as pazes para poder seguir a vida independente dos problemas que marcam o passado de cada um. Entretanto também não forçariam um encontro que inevitavelmente resulta em provocações e mágoas afloradas.

O rancor acumulado ao longo dos anos, se confrontado, deve ser de forma consciente e bem estruturada. Bater de frente com as mágoas e resolver tudo da forma mais rápida e prática – colocando os lucros que cada um terá com a venda de uma propriedade, por exemplo – só faz com que as chances de uma reconciliação sejam ainda mais reduzidas, geralmente até impossíveis.


terça-feira, 19 de setembro de 2017

Gatos Velhos (Gatos Viejos)

Gatos velhos têm o estigma de serem teimosos, cheios de manias e ranzinzas. Não chega a ser mentira, mas por outro lado também são fiéis ao que viveram, apegados a casa e aos donos, ainda que o apego às pessoas não seja incondicional, mas expresso de forma peculiar.

Neste longa dos diretores Pedro Peirano e Sebastián Silva os dois gatos não chegam a ser protagonistas. Ilustram uma metáfora para o casal de idosos do apartamento.

Isadora (Bélgica Castro) sente pesados sinais da idade, tem dificuldade para se locomover e a memória já não é nada confiável. Além dos problemas ainda tem que lidar com Rosario (Claudia Celedón), a filha com quem parece não ter nenhuma afinidade.

O filme nos induz a ficar contra Rosario. A reprovação de Isadora ao relacionamento homossexual da filha é um juízo de valor anacrônico, mas o uso de drogas, as constantes falências e, sobretudo a tentativa de vender o apartamento para utilizar o dinheiro em mais um empreendimento pouco promissor não cria nenhuma empatia com a personagem.

Rosario é alérgica aos gatos. Talvez pela semelhança de comportamento inflexível e pela concorrência desleal pela atenção de Isadora. A mãe não faz muita questão de esconder a simpatia pelos felinos e a relação de tolerância com a filha.

É Enrique (Alejandro Sieveking), o padrasto de Rosario, quem protege Isadora. Tenta trazer um pouco de lucidez para as propostas da moça e impedir que a velha senhora assine os papeis da venda do apartamento. A tensão entre ela e o padrasto, claro, é gritante.

Vale lembrar que o filme trata de um período muito curto e específico da vida dos personagens, nos guiando para ter empatia em relação a uns e repulsa a outros. Vemos que Enrique é um pouco mais novo e mais lúcido que Isadora, mas não sabemos mais nada sobre ele. Nada garante que a aparente preocupação com a companheira não seja sustentada pelo interesse em bens materiais, como o apartamento que ele tanto defende.

Já a relação entre mãe e filha, que é sempre cercada de simbologias e tensões, ganha mais destaque no filme. O desgaste que chega até o conflito atual das duas é antigo e seria irresponsável jogar toda a responsabilidade nos comportamentos condenáveis de Rosario.

A falta de lembranças em comum por parte das duas indica uma distância de longa data, que inevitavelmente influenciou tanto na personalidade quanto nos comportamentos da filha. O fato de hoje Isadora estar debilitada e frágil não significa que no passado ela foi uma mãe atenciosa e responsável. Por outro lado, nenhuma negligência passada justificaria um comportamento hostil por parte da filha, justamente quando a mãe mais precisa de cuidados.

Em meio aos conflitos de interesse, pode se que surja uma centelha de reconciliação. As teimosias que cultivamos com tanto cuidado ao longo da vida geralmente passam a ter vida própria e a nos controlar muito mais do que gostaríamos. Mágoas e ressentimentos chegam a se desvincular de sua origem real e a existir de forma autônoma. Ninguém nem lembra os motivos que levaram ao afastamento, mas a distância é mantida quase que por hábito.

Isadora tem todo o direito de defender seu apartamento com unhas e dentes, se recusando a assinar qualquer papel que a faça abrir mão de seu patrimônio. Mas também pode começar a pensar em como poderia resgatar um pouco de afeto em relação à filha. Com a consciência dando sinais de fragilidade é possível que o tempo para tomar alguma atitude seja escasso.

Por parte de Rosario, seus traumas e histórico de vida em que foi privada da atenção materna devem ser considerados. Além dos conflitos familiares ela ainda deve lidar com a homofobia cotidiana, que não é restrita à recusa da mãe em aceitar comportamentos diferentes da heteronormatividade.

Mesmo assim, os traumas vividos não dão a Rosario a liberdade de fazer o que quiser, desconsiderando que sua mãe tem o direito de dispor dos próprios bens. O histórico de empreendimentos mal sucedidos, somado aos conflitos cultivados ao longo da vida de ambas, faz com que Isadora fique naturalmente desconfiada.

Diante de uma situação complexa, que aparenta ser o ápice de uma longa série de conflitos, parece que o melhor caminho é o esforço para que gatos velhos ainda consigam ser maleáveis e dóceis. Truques novos são bem-vindos em qualquer tempo.


terça-feira, 12 de setembro de 2017

Corações Sujos

As batalhas europeias da Segunda Guerra costumam ser estudadas a fundo nas aulas de história. Porém o Japão, que fazia parte dos países do eixo, só costuma ser lembrado por aqui devido ao ataque de Pearl Harbor e às bombas atômicas que encerraram definitivamente a Guerra.

O Brasil começou a abrigar, no início do século 20, uma das maiores colônias japonesas do mundo. Com o início da Guerra esses imigrantes, que já sofriam certo preconceito devido às particularidades culturais, passaram a sofrer forte repressão por parte do Estado e da sociedade.

Os conflitos sociais do pós-guerra gerados no Brasil são amplamente descritos pelo jornalista Fernando Morais, no livro Corações Sujos, e ganharam as telas com o trabalho do diretor Vicente Amorim.

É difícil compreendermos com clareza a devoção dos japoneses à pátria e ao imperador. Até o fim da Guerra o imperador tinha caráter divino e abrir mão desse status foi um dos itens de rendição do imperador Hirohito.

Quando as rádios e jornais brasileiros começaram a divulgar a derrota dos países do Eixo, muitos japoneses simplesmente se recusavam a acreditar que o Japão havia perdido a guerra, um fato até então inédito na história milenar do país. Mesmo as mensagens em japonês que confirmavam a derrota eram encaradas como propagandas falsas dos Estados Unidos.

O problema é que os japoneses que aceitavam o fim da guerra passaram a ser considerados traidores. Eram os chamados ‘corações sujos’, que após terem a casa marcada – semelhante aos judeus na Alemanha – eram condenados à morte.

Não era um simples assassinato. À vítima era oferecida uma alternativa, que as diferenças culturais também dificultam nossa compreensão. Os considerados traidores tinham a possibilidade de cometer suicídio, uma forma de morrer com honra, que normalmente era uma alternativa recusada, levando à execução.

As autoridades brasileiras, responsáveis por impedir os conflitos, não sabiam como resolver o problema. Mais que isso, desde a Segunda Guerra costumavam ser hostis aos japoneses, considerados inimigos quando o Brasil passou a combater o Eixo.

Um episódio marcante, que deu origem à organização de japoneses destinada a combater os corações sujos, foi a abordagem policial na qual um soldado brasileiro usou uma bandeira do Japão para limpar a bota. A bandeira nacional é considerada sagrada pelos japoneses, a ponto de ser oferecida junto com uma adaga aos condenados que optassem pelo suicídio.

Os conflitos começaram a tomar grandes proporções, mas ninguém conseguia convencer os japoneses mais radicais de que a guerra havia, de fato, acabado com a rendição japonesa. A dificuldade de identificar membros da seita responsável pelos assassinatos era um agravante. Milhares de imigrantes chegaram a ser presos, mas muitas vezes não havia provas de ligação com os conflitos.

A organização criminosa foi desmanchada aos poucos, com alguns líderes presos e outros assassinados. Já a discriminação em relação aos imigrantes japoneses foi mais duradoura.

É interessante pensarmos em como a tolerância aos imigrantes varia ao longo do tempo. Hoje é estranho pensarmos em japoneses hostilizados, ou mesmo no medo que havia entre os brasileiros de que o Brasil pudesse, por influência dos imigrantes, passar a ser como o Japão.

Quando crises internacionais fazem o sentimento de nacionalismo voltar a ganhar força, os exemplos históricos nos ajudam a compreender como certos discursos não fazem sentido em longo prazo.

Tanto a fidelidade dos japoneses radicais, dispostos a matar seus conterrâneos por aceitarem a derrota que de fato ocorreu, quanto o preconceito contra os imigrantes fomentado por uma política estatal alinhada aos combates da Guerra se mostraram absurdos com o tempo.

Não faltam exemplos históricos que nos ensinem como o nacionalismo, que nasce com o pretexto de exaltar qualidades de um povo, logo se transforma em ódio a um segmento adotado como inimigo. O resultado não costuma variar muito.

Levado ao extremo o nacionalismo deixa um grande número de mortos, segregações e limitações de pessoas que poderiam ser brilhantes, mas são ofuscadas pelo preconceito que as reduz a um rótulo descabido.

Hoje o Japão é visto como exemplo a ser seguido, graças ao desenvolvimento tecnológico e econômico. As colônias japonesas no Brasil estão mais adaptadas culturalmente e também são respeitadas, porém o duro período vivido pelos imigrantes em meados do século passado deve ser lembrado, sobretudo para que não se repita em relação a outros imigrantes.


terça-feira, 29 de agosto de 2017

Neruda

A poesia de Pablo Neruda o levou a ser um expoente da literatura latino-americana. Esse filme do diretor Pablo Larraín mostra um pouco da vida política do escritor, levando ao questionamento se foi o lado poeta que influenciou o político ou vice-versa.

Muito antes do reconhecimento mundial através do prêmio Nobel de literatura, com que foi agraciado em 1971, Neruda foi senador no Chile na década de 1940. As ditaduras militares ainda não haviam sido instauradas e o poeta já tinha que lidar com a perseguição política. Este é o recorte de sua vida retratado no filme, interpretado por Luis Gnecco.

Pensando em um contexto mais amplo, a hegemonia geopolítica era disputada entre uma potência capitalista e outra, que ao menos no discurso, defendia o sistema comunista. A existência de um governo já descaracteriza a teoria comunista, mas ainda assim a disputa da guerra fria seguiu por algumas décadas.

A proximidade geográfica e cultural facilitou a influência dos EUA em toda a América Latina, plantando uma semente de ódio ao pretenso inimigo. O discurso dominante, imposto a qualquer preço, moldou um imaginário sobre comunismo que em nada se assemelha à ideologia marxista. Ao longo dos anos muitos internalizaram a ideia de combate ao inimigo, sem nunca ter chegado perto de um livro de Marx ou de seus estudiosos.

Na contramão dessa aversão ideológica, intelectuais e artistas buscam na essência de uma sociedade mais justa a inspiração e o material de suas obras. Entre personalidades renomadas da América Latina, Neruda se destacou por sua atuação política direta. Não se restringiu ao apoio a políticos, mas foi eleito para o senado e chegou a pleitear a presidência do Chile, abrindo mão da candidatura em nome de Salvador Allende.

Uma oposição crítica e engajada, que proponha alternativas muito melhores à população, é um pesadelo aos que governam colocando o capital acima do social. A saída costuma ser a perseguição política, que no filme fica a cargo do inspetor Óscar Peluchonneau (Gael García Bernal).

A necessidade de capturar Neruda diz muito sobre a necessidade de fabulação em torno da figura do suposto transgressor. Óscar não persegue o poeta real, mas a imagem criada de alguém perigoso que deve ser detido.

Não há nada de errado na fuga de Neruda. A premissa de que ‘quem não deve, não teme’ não condiz com as perseguições políticas, nem com os métodos nada constitucionais daqueles que, em nome da lei e da ordem, torturavam e aplicavam sanções ilegais. Mesmo antes de Pinochet tomar o poder através do golpe militar chileno, Neruda sabia da necessidade de buscar refúgio.

As armas do poeta são as palavras. Na tentativa de se defender sem abrir mão dos ideais políticos que o levaram à clandestinidade, não espalhava bombas ou armadilhas. Seu ataque era deixar um pequeno e silencioso livro, dedicado a Óscar, cuja curiosidade o levava à leitura.

Conhecer o suposto inimigo instiga reflexões e questionamentos. Tudo o que se busca aniquilar através da censura, para que o conteúdo real não desmonte o trabalho de criação do inimigo pelo desconhecido.

Em contrapartida, o que o Estado repressor tem a oferecer além da força desproporcional é um ataque à moral e aos costumes de uma vida boêmia, que não por acaso fica na esfera privada do indivíduo, não tendo influência em sua atuação política.

Atado à rígida hierarquia militar, Óscar deve somente cumprir seu dever sem questionar a legitimidade das ordens. Para ir além de um mero executor, busca através de sua caça o reconhecimento e talvez algo que o tire da mediocridade de um agente repressor. Uma fama que não tem condições de alcançar através do talento, a exemplo de Neruda.

Como se pode comprovar décadas mais tarde, com as ditaduras que assolaram tanto o Chile quanto os países vizinhos, a perseguição aos artistas acontecia por parte daqueles que alegavam visar a destruição do monstro intitulado comunismo, mas na prática pareciam buscar a censura de um estilo de vida.

Em um movimento histórico ondulatório, oscilando entre períodos de maior repressão e outros mais liberais, vemos o quanto valores morais conservadores se expressam de forma capilarizada na sociedade, censurando hábitos considerados promíscuos como uma maneira de manutenção de um sistema excludente.

A morte de Neruda, que aconteceu algumas décadas após os fatos do filme, segue envolta em mistérios. Muitos juram que o poeta foi assassinado pelos militares. É uma possibilidade que, mesmo se for falsa, revela a incompatibilidade de uma vida dedicada à arte contestadora, com um regime totalitário e repressor.


terça-feira, 22 de agosto de 2017

Comandante

Oliver Stone teve uma oportunidade rara. Entrevistar por cerca de trinta horas um dos mais icônicos personagens do século 20. Fidel Castro respondeu diretamente a todas as perguntas, sem assessores ou intermediários, somente com o auxílio da tradutora Eugenia Gobbato, que já trabalhava com o Comandante há décadas.

Ao longo de todo o filme é possível ouvir a voz da tradutora, às vezes se sobrepondo aos protagonistas. Talvez o diretor tenha buscado a confiança do conteúdo, com uma tradução simultânea que não deixa dúvida quanto ao que foi questionado e respondido.

Uma das preocupações de Stone é deixar claro que ofereceu a Fidel a possibilidade de vetar questões ou refilmar o que considerasse inadequado. Nada disso foi requisitado pelo cubano. Sempre sereno e bem humorado, quando ainda estava no comando da ilha, Fidel respondeu a tudo o que foi questionado de forma simples e direta. Aparentemente os longos discursos, marcantes na vida do Comandante, eram feitos mais com cunho político do que como uma forma natural de se expressar.

O trabalho do diretor não deve ter sido nada fácil. É uma vida repleta de fatos importantes que, após ser condensada nas horas de entrevistas, ainda deve ser resumida em pouco mais de uma hora e meia. Um documentário de entrevista não deve ser muito longo, sobretudo quando não há muitas externas nem variação de entrevistados, pois independente do tema, fica difícil prender a atenção de quem assiste.

Stone consegue compor um documentário fluído, que retrata pontos importantes da vida política do Comandante sem abrir mão de mostrar a vida do homem por trás do governante. O menor destaque à vida particular é compreensível por se tratar de uma figura com peso político internacional, além de que os hábitos de Fidel não ficavam muito distantes de sua atividade profissional. Seus estudos e reflexões costumavam tomar mais tempo que as distrações ou descanso.

Desde a Revolução Cubana, em 1959, o governo começou a investir no cinema, como uma forma de entreter e politizar a população. Inclusive os documentários cubanos são uma das marcas culturais do país, tendo revelado diversos diretores especializados no gênero.

É bem provável que a escolha de um diretor norte-americano, mesmo com profissionais hábeis dentro do próprio país, se justifique pela busca de uma isenção política. Nenhum documentário é plenamente imparcial, sobretudo ao abordar um assunto político e tão divergente quanto o governante cubano, mas um documentarista local seria inevitavelmente taxado de parcial ou até de um conchavo político.

O trabalho de um diretor vindo do país vizinho e inimigo histórico elimina a hipótese de ameaças ou chantagens políticas por parte de Fidel e, uma vantagem que ultrapassa a paranoia de um líder político supostamente onipotente, dá ao filme uma visão de fora da Ilha.

Mesmo que Oliver Stone tenha formado sua visão de Cuba com base no noticiário norte-americano, ou seja, com notícias voltadas à formação de um inimigo ideológico, seu trabalho como documentarista teve o viés de esclarecimento de fatos obscuros a quem está fora de Cuba, fazendo com que Fidel se apresente diretamente a estrangeiros através do documentário.

Ao abordar um tema tão controverso, que envolve opiniões passionais extremas, é inevitável que críticas sejam feitas por ambos os lados. Há quem diga que Stone foi complacente com Fidel e evitou temas polêmicos; outros apontam a omissão de aspectos positivos do governo cubano ao longo de mais de quarenta anos.

Parece que Oliver Stone apenas cumpre o papel de um entrevistador. Ao invés de demonizar Fidel para corroborar a versão norte-americana da história, ou glorificar a vida do Comandante cubano a partir de suas próprias palavras, o filme mostra um velho governante, com virtudes e defeitos.

Fidel fala abertamente sobre fatos históricos, assume erros e exalta qualidades, semelhante à forma com que qualquer um se descreveria, com a evidente diferença de seu peso na geopolítica mundial.

Independente de qual seja o posicionamento político de quem assista ao documentário, verá um líder político que passou boa parte da vida sob a mira da CIA, enfrentou grandes potências amparado por uma pequena ilha e não apenas superou problemas sociais crônicos na América Latina como passou a oferecer ajuda humanitária a outros países com menos recursos.

Erros e críticas são inevitáveis para qualquer governante. Talvez mais produtivo que uma tentativa de demonização dos feitos da Revolução Cubana, fosse uma análise de seus logros, a serem alcançados sem passar pelos mesmos equívocos.


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Batismo de sangue

Um Estado governado por militares, com tortura de cidadãos civis, eventuais assassinatos e ocultação de cadáveres por parte daqueles que deveriam zelar pelo bem estar da população. Na economia, um falso crescimento amparado pela dívida externa que aumentava exponencialmente. A corrupção era facilmente dissimulada, tanto através da censura institucionalizada quanto pelas formas violentas que o estado de anomia oferecia aos militares para inibir denúncias.

As linhas gerais do que foi o período de ditadura militar no Brasil não nos dão uma ideia exata do que sofreram aqueles que foram politicamente perseguidos. Neste ponto o livro ‘Batismo de sangue’ de frei Betto, aqui adaptado pelo diretor Helvecio Ratton, elucida o terror vivido pelas vítimas do regime, detalhando as arbitrariedades, as torturas físicas e o terror psicológico imposto pelas autoridades.

O argumento insano de que bastava não cometer crimes para não ter problemas com o Estado, ainda que possuísse alguma legitimidade, era falso. Mesmo os criminosos reais devem ser punidos com respeito à dignidade humana, não obstante, é notável no filme que inocentes foram torturados, até que a suspeita de envolvimento com a guerrilha fosse desfeita.

A tortura e toda forma de punição pelo suplício é inaceitável qualquer que seja o aspecto analisado. É no mínimo frustrante pensar que hoje algumas pessoas vejam os métodos utilizados nos porões da ditadura, que incluíam dias de privação de sono, choques elétricos nos órgãos genitais, estupros, queimaduras e o que mais a criatividade sádica pudesse criar, como algo minimamente construtivo.

A narrativa se restringe ao recorte histórico da perseguição a frades dominicanos, sob a alegação de contribuir com guerrilheiros liderados por Carlos Marighella (Marku Ribas). Questionar um governo ditatorial e lutar pela democracia não é crime. Ainda que atos políticos pudessem ser nivelados com crimes comuns, a justiça baseada em leis, com direito à defesa e contraditório são ganhos sociais pelos quais lutamos duramente.

Um dos destaques da história, até por ser o autor do livro, é frei Betto (Daniel de Oliveira), que não sofreu torturas físicas por influência familiar. Militante político com habilidade rara de tecer alianças entre a Igreja e os combatentes, após quatro anos de cárcere o dominicano produziu várias obras aproximando os valores cristãos de uma política social voltada aos necessitados.

Essa proximidade, que deveria ser elementar, nem sempre é valorizada pela instituição política representada pela igreja Católica. Contrariando dogmas religiosos, algumas figuras notórias da Igreja distorceram interpretações bíblicas com o intuito de relativizar a atitude dos militares e tentar atribuir alguma culpa a ser punida, por parte dos frades.

A omissão custou caro, sobretudo a frei Tito (Caio Blat). Em resposta à covardia acima da média de sua sessão de tortura, Tito resistiu estoicamente para livrar seus companheiros do mesmo suplício pelo qual passou. Porém os efeitos da tortura não são mesuráveis. Assim como a resistência à dor é variável, portando aquele que cede às pressões não pode ser criticado, os traumas gerados pelo sofrimento são imprevisíveis e, no caso de frei Tito, irreversíveis.

No outro extremo da história, o destaque é o torturador Sérgio Fernando Paranhos Fleury (Cássio Gabus Mendes). Um pai dedicado e amoroso, que defendia valores morais e a instituição familiar; tudo lavado com o sangue de civis torturados impiedosamente.

O autoritarismo em nome da liberdade do ‘cidadão de bem’ que precisava ser protegido da ameaça do comunismo não se sustenta. O período de tensão política e forças divergentes que culminaram no golpe de 64 nunca chegou a ter um movimento de esquerda coeso e forte a ponto de almejar o poder.

O que muitos tentam impor através do discurso histórico como ações terroristas foram, na verdade, reações ao autoritarismo que tomou o poder, barrando avanços sociais e trabalhando em prol de uma elite econômica que até hoje concentra a maior parte da riqueza do país.

Há alguns anos atrás poderíamos pensar em Batismo de Sangue como um documento histórico obrigatório. Hoje, com o avanço da extrema direita e grupos de manifestantes clamando pela volta do regime militar em carros de som, a obra ganha tom de alerta. Quem sabe as cenas de tortura – inevitavelmente desagradáveis e repugnantes – não sirvam de aviso para a falta de limites daqueles que em nome da ordem instalam um caos silencioso e sangrento.


sexta-feira, 28 de julho de 2017

Viva

Cuba é um ícone político mundial desde a revolução de 1959, o cinema da ilha tradicionalmente reflete os pilares defendidos pelo sistema político, servindo de propaganda e formação dos seus cidadãos.

Fugindo dessa tradição, o diretor Paddy Breathnach traz às telas temas cotidianos, repleto de peculiaridades cubanas, mas que pode ser transposto com poucas adaptações a outros países.

O protagonista é Jesús (Héctor Medina). Vivendo sozinho e tendo poucos amigos, trabalha como cabeleireiro e ajuda nos bastidores de uma boate, onde se apresentam drag queens. Seu sonho não está tão distante. O jovem gostaria de não ficar limitado aos bastidores das apresentações e subir ao palco como atração da boate.

Parece um objetivo bastante plausível, sobretudo com as amizades que já tem, com drags que poderiam ajuda-lo na nova carreira. Porém, logo fica claro que Jesús não escapará da realidade tão comum aos homossexuais.

Não bastassem as dificuldades naturais na vida de qualquer pessoa, ele terá como acréscimo o obstáculo da homofobia, que com algumas nuances o filme dá a entender que assombrou o personagem durante a vida escolar e agora surge inesperadamente.

Jorge Perugorría, que no filme Morango e Chocolate interpretou um homossexual, desta vez é Angel, pai de Jesús, que saiu da prisão após quinze anos de cárcere e parece ter voltado apenas para dificultar a vida do filho. O ex-boxeador proíbe Jesús de se apresentar e com ambos desempregados, pai e filho – praticamente dois desconhecidos – devem dividir um pequeno apartamento, em um esforço diário para comprar comida.

Com o crescimento da luta do movimento LGBT a tolerância aos atos de homofobia vem diminuindo, ainda que bem mais devagar que o necessário. Atitudes homofóbicas já não são vistas com naturalidade por boa parte da população, o que nos faz estranhar certas atitudes complacentes de Jesús com o pai.

O jovem prefere aguentar Angel bêbado e autoritário do que recorrer à ajuda de Mama (Luis Alberto García), a principal drag queen da boate. A escolha é explicada ao longo do filme. Pode ser questionável, mas nesse sentido as raízes do cinema cubano são mantidas, pois a história rende reflexões e debates que tendem a aprofundar uma visão geralmente superficial sobre o tema abordado.

O diretor opta por retratar os personagens de acordo com os estereótipos mais comuns. O homossexual cabeleireiro, sensível; e o homofóbico lutador, alcoólatra. É uma certa restrição, pois uma das reivindicações do movimento LGBT é exatamente a desconstrução de locais pré-determinados aos homossexuais, porém não deixa de ser uma denúncia da restrição no campo de atuação para aqueles que não se encaixam na heteronormatividade.

Muitas críticas aos homossexuais são baseadas no trabalho com a prostituição ou atividades baseadas de alguma forma na sexualidade, no entanto muitos não optam, mas são levados a essas atividades pela impossibilidade de encontrar trabalho, seja pela recusa dos empregadores, seja pela pouca instrução.

Uma vida de bullying intenso nas escolas ao longo da infância e adolescência não faz dos estudos uma opção muito atraente. Conforme citado, apesar de não haver relatos diretos da vida de Jesús, sua falta de amigos e alguns diálogos indicam as dificuldades vividas na adolescência, que mal chegou ao fim.

Esse histórico do jovem, que é órfão de mãe, é desconhecido por parte de Angel, mas é possível indicar que existe certa preocupação paterna com o filho. Uma preocupação que se expressa de forma inaceitavelmente machista, de alguém que além de cair de paraquedas na vida de Jesús, ainda passou quinze anos isolado da sociedade.

Pouco a pouco percebemos que não se trata apenas de um caso de homofobia a ser repelido. Existe uma complexidade por trás dos personagens que força Jesús a buscar o amor paterno, que até então ele não conhecia, mas que valoriza a ponto de moldar sua vida para se aproximar de Angel.

O ex-boxeador, ainda que tenha atitudes inaceitáveis, tem mais problemas do que o primeiro contato com o filho pode demonstrar. Parece que a homossexualidade do filho não chega a ser um problema tão grade a ele, mas a preocupação gira em torno das dificuldades que o jovem enfrentaria. Provavelmente Angel tem o olhar viciado que impede de aceitar a sexualidade como algo individual e particular, que não deve influenciar em nada na vida social.

Profundo e sensível, Viva mistura críticas sociais indispensáveis com uma visão romântica, que sonha com soluções benéficas para aqueles envolvidos em situações que sequer deveriam ser encaradas como um problema. Diante das dificuldades econômicas, da falta de convivência e problemas de saúde, a homossexualidade de Jesus, cujo nome sem dúvida é proposital, sequer deveria ser considerada como fator relevante para Angel, que também não tem esse nome por acaso.


quarta-feira, 19 de julho de 2017

O cidadão ilustre (El ciudadano ilustre)

A literatura não cria apenas uma realidade, cria uma realidade para cada leitor. Indo além das páginas do livro, cada um cria uma imagem do escritor, de suas inspirações e do que tem de real na história narrada, independente de quanto o livro seja fantasioso.

Isso ajuda a entender a situação do personagem Daniel Mantovani (Oscar Martínez). O escritor fictício ganhou o prêmio Nobel e agora pode se dar ao luxo de selecionar de forma muito criteriosa os eventos que aceita participar. A ligação afetiva faz com que ele aceite o convite para voltar a Salas, sua pequena cidade natal, no interior da Argentina, onde receberá o título de Cidadão Ilustre.

Não é fácil corresponder às nossas próprias expectativas. Idealizamos um cenário perfeito e a realidade sempre fica distante da perfeição, se não soubermos dosar a frustração e aproveitar os fatos concretos, as lamentações do que poderia ter sido serão sempre maiores.

A tarefa de Mantovani é ainda mais difícil, pois além de suas próprias expectativas geradas pelos quarenta anos de distância da cidade, ele ainda encontrará toda a população local, cada um com sua esperança individual de ascensão através da visita do ilustre desconhecido, já que poucos haviam conhecido pessoalmente o escritor.

Os diretores Gastón Duprat e Mariano Cohn filmaram um roteiro original, mas a obra acaba ajudando a entender porque a frase ‘o livro é melhor que o filme’ é tão popular quando diretores optam por uma adaptação.

Assim como os moradores de Salas criaram uma realidade imaginária com a visita de Mantovani, alguns com a possibilidade de demonstrar seus afetos, muitos contando com uma carona na fama do compatriota, cada leitor de um livro cria sua própria realidade a partir das descrições literárias.

É impossível a qualquer diretor de cinema corresponder à expectativa dos leitores, pois até mesmo sua própria leitura será distorcida ao ser filmada, com atores e cenários que não são idênticos ao que foi imaginado.

Com essa analogia podemos entender as frustrações que a visita de Mantovani proporcionou. Diferente do que muitos esperavam, o escritor é avesso ao assédio e à notoriedade. Ele até abre exceções por um pouco de simpatia, mas o público é intransigente em relação ao que espera.

Uma desproporção notável fica por conta dos valores de cada um. É evidente que passando tanto tempo em grandes cidades, em contato com a cultura erudita e imerso em um universo cosmopolita, Mantovani tem pouco em comum com os cidadãos provincianos, que não são inferiores por conta dessa diferença, somente têm um estilo de vida condizente com a realidade que os cercam.

A estrutura mercadológica também tem seu peso no abismo cultural formado entre o escritor e seus conterrâneos. À população de pequenas cidades do interior só chega o que pode ser consumido, gerando lucro para a cadeia produtiva. Desta forma os cidadãos mais ricos possuem grandes carros, casas suntuosas e ostentam bens materiais.

Em contrapartida, Salas, ou qualquer outra pequena cidade longe de grandes centros, não possui cinema, teatro, livrarias, muito menos exposições periódicas de artes. As pinturas de gosto duvidoso feitas por moradores não poderiam ser diferentes, já que nem mesmo os grandes nomes da pintura desenvolveram suas técnicas sem referências clássicas.

O orgulho ferido de alguns moradores diante da frustração com algumas atitudes de Mantovani não vem somente pelas críticas do escritor, mas pela condição inusitada de quebra de tradições.

Cidades que são pouco maiores que povoados possuem hierarquia política bastante clara. Os donos do poder não estão habituados, portanto não aceitam em nenhuma hipótese, ouvirem algo contrário ao que esperam, vindo de alguém sobre quem a elite não tem controle.

Colocando a literatura, ainda que de forma inusitada, como ponto central do filme, os diretores instigam de forma leve e bem humorada algumas reflexões sobre o comportamento social, confrontando a distância entre um escritor consagrado, que integra o seleto grupo de vencedores do prêmio Nobel, e uma boa parte da população, já que os estereótipos explorados estariam presentes em vários outros locais.

Um escritor engajado costuma pensar em temas profundos, que retratem problemas sociais e questionamentos internos, mas romper a barreira elitista e fazer com que as obras cheguem ao público alvo imaginado pelo autor, não pelas livrarias, é um desafio a mais para quem busca seguir o árduo caminho da escrita.


terça-feira, 11 de julho de 2017

Luz nas trevas - a volta do Bandido da Luz Vermelha

Bandido da Luz Vermelha foi como ficou conhecido João Acácio Pereira da Costa. Na década de 60 ele entrou na casa de suas vítimas utilizando uma lanterna com luz vermelha e os assassinatos entraram para a história da literatura policial do país.

As tragédias, imediatas para as vítimas e posterior para o próprio João Acácio, chegaram ao cinema em 1968, na obra dirigida por Rogério Sganzerla. Sob a influência do cinema novo, Sganzerla apresentou uma crítica social em forma de sátira, que se tornou um clássico do cinema nacional.

Depois de 50 anos a história volta a ser contata nas telas, desta vez dirigida por Ícaro Martins e Helena Ignez, que recorreram à obra original e utilizam trechos de sons e imagens, sobretudo para enfatizar um ambiente caótico e perturbado.

Esta versão também não visa uma cinebiografia. A sátira e as metáforas são formas eficazes de indicar que excluindo algumas peculiaridades de João Acácio, como a luz vermelha que destacou seus crimes, a essência do caso se assemelha a tantos outros que juntos colocam o país entre os mais violentos do mundo.

Todos os países têm casos isolados de assassinatos que chamam a atenção, pela quantidade de vítimas, crueldade extrema ou peculiaridade no método adotado pelo criminoso. Porém aqui o Bandido da Luz Vermelha (Ney Matogrosso) tem sua notoriedade diluída no mar de presos de uma cadeia superlotada.

A atuação do artista que, apesar de sempre muito performático, fez carreira na música, é baseada em monólogos de um presidiário com ampla visão crítica, tanto do sistema prisional quanto da estrutura social na qual esteve imerso até a detenção.

Há quem critique a análise do histórico social de criminosos, alegando que nada justifica os crimes cometidos. De fato, a maioria das pessoas expostas desde a infância às mesmas privações passam a vida sem recorrer aos crimes. Portando seria reducionista alegar que todo o problema vem da desigualdade social.

Mesmo assim, é inegável que as pessoas reagem de formas distintas aos estímulos sociais que recebem. Muitos, como João Acácio, optam por arcar com as possíveis consequências legais e desfrutar os lucros de assaltos. A eventual morte de uma vítima pode ser somada a tantos corpos, nem sempre criminosos, que amanhecem nas favelas.

O sistema prisional vingativo e corrupto, que visa proporcionar ao detento a pior condição de vida possível, lucrando com propinas de quem tenta comprar um resquício de dignidade, vem dando provas históricas de sua ineficiência. O índice de reincidência, a criminalidade fora de controle e a criação de facções criminosas parecem ser fatores cuidadosamente despercebidos pelos que defendem tratamento desumano aos detentos.

De forma difusa, o filme dá uma versão social para a criação de um criminoso, que não quer roubar pela mera sobrevivência, mas por uma vida de extravagâncias almejada por qualquer um e que nada justifica ser restrita a uma pequena parcela da população.

Uma sociedade mais igualitária e consequentemente mais justa não deve ser buscada como forma profilática para eventuais crimes bárbaros. O sangue dos latrocínios, no Brasil, é a ponta visível de toda uma estrutura de violências cotidianas, geralmente tão tradicionais que sequer são identificadas como tal.

O título ‘Luz nas trevas’ é ideal para a proposta do filme. Foge do estereótipo e expande a ideia de retratar o caso específico do ‘bandido da luz vermelha’. Além de resgatar a atmosfera do primeiro filme, mesclando crítica social e fatos históricos através da sátira, Ícaro Martins e Helena Ignez dão continuidade ao trabalho anterior, com uma roupagem moderna, mas abordando temas ainda presentes em nossa sociedade, mesmo depois de meio século.

Talvez o filme de Rogério Sganzerla pudesse ser visto em sua época com um pouco de esperança. João Acácio havia acabado de ser preso, com uma condenação que garantia o teto de trinta anos de encarceramento. A sociedade poderia seguir em frente, livre do assassino que povoou o imaginário do país.

Hoje sabemos que o bandido da luz vermelha do filme mais recente é puramente ficcional. O culto, consciente e artístico personagem interpretado por Ney Matogrosso em nada se assemelha ao João Acácio que deixou a cadeia depois de trinta anos, com evidentes problemas mentais e assassinado poucos meses mais tarde.

A realidade, despida dos floreios da arte, segue nos apresentando apenas o lado ruim dos problemas estruturais da sociedade, retratados nos dois filmes. Seguimos reproduzindo as condições ideais para a formação de criminosos e exibindo ícones do crime, quando presos, como troféus de caça.


terça-feira, 20 de junho de 2017

A demora (La demora)

Como reagir diante de um grande problema, do qual não podemos fugir, mas para o qual não há saída fácil? Esse é o impasse da protagonista María (Roxana Blanco), com o agravante de ter que decidir sozinha o futuro de seu pai, Agustín (Carlos Vallarino), que com idade avançada já apresenta sinais da falta de memória.

O diretor Rodrigo Plá constrói sua história deixando claro que as dificuldades de María têm vários fundamentos relacionados com sua vida. Não se trata de uma mulher mimada que, sem o hábito de enfrentar problemas, opta por abrir mão de suas responsabilidades de forma imprudente e egoísta.

Mãe de duas crianças pequenas e afeitas ao avô, a protagonista não conta com a ajuda de nenhum outro familiar para cuidar de seu pai, que demanda cada vez mais atenção. É angustiante ver que o idoso começa a não reconhecer a própria filha, sabendo que a medicina ainda não tem nenhum tratamento eficaz contra a perda de memória.

Não bastassem as dificuldades pessoais de lidar com esse problema, a condição econômica é sempre um fator decisivo. María não tem como pagar por um bom asilo, muito menos arcar com os custos de uma cuidadora. Os personagens chegam ao ponto em que o ciclo da vida parece invertido.

É inevitável, sobretudo para as famílias de baixa renda, que crianças queiram coisas completamente fora do poder aquisitivo dos pais. Por mais que possam surgir lições pedagógicas sobre como lidar com o dinheiro e abrir mão de desejos inalcançáveis, é sempre incômodo aos pais frustrar o desejo dos filhos.

No filme a restrição econômica da personagem, que passa a ser responsável pelos cuidados ao pai, tem o agravante de não ser um luxo dispensável, mas uma demanda cada vez mais inadiável. Não há lição possível ao idoso que dá cada vez mais trabalho, ainda que sem a menor responsabilidade sobre isso.

Cabe à filha uma culpa psicológica, ainda que falsa, por não conseguir lidar com os problemas. Suas crianças acabam tendo a infância afetada pelas necessidades cotidianas. A menina, um pouco mais velha, mas ainda longe da adolescência, é incumbida de cuidar do irmão caçula e todos na casa acabam tendo que se desdobrar para que uma vida minimamente aceitável siga em frente.

Somos tentados a pensar que Agustín não ajuda no pouco que lhe cabe. O idoso se recusa a aceitar sua condição e se apega à consciência, ou ao menos à lucidez que ele acredita manter, para recusar as tentativas da filha de uma internação em alguma casa de repouso.

Na verdade ainda que a memória de Agustín esteja prejudicada, a ponto de esquecer o próprio endereço e começar a não reconhecer as pessoas mais próximas, é possível notar que ainda existem momentos de consciência que o fazem lamentar a atual condição.

Ter noção da própria decadência física e psicológica, sem poder fazer nada para reverter os sinais da idade, também é um grande peso para a própria pessoa, que tenta lutar contra o tempo e contra o próprio corpo para manter os mínimos resquícios de sanidade e até mesmo de dignidade.

Quando pensada de forma isolada, sobretudo diante das consequências exibidas pelo filme, a decisão tomada por María para tentar resolver o problema de uma forma menos sofrida beira a monstruosidade. Contando com a falta de memória recente do pai, ela o abandona requisitando o resgate de um albergue público – nada que o trailer não revele.

É evidente que entre todas as saídas que a protagonista poderia escolher, o diretor opta por colocá-la em uma condição criticável. Mesmo que sua fragilidade seja construída durante o filme, é inevitável nos colocarmos na mesma situação para depositarmos toda nossa empatia no velho Agustín.

Apesar disso, María não se mostra fria ou vingativa por uma vida de privações por parte do pai. Ainda que nada a livre totalmente do peso de uma decisão controversa e cruel, cabe a reflexão quanto aos limites psicológicos de cada indivíduo, levado a extremos tanto no campo afetivo quanto no aspecto econômico.

Independente de qual seja sua conduta, María é vítima de um sistema cruel, que a coloca entre a cruz e a espada, fazendo com que a opção por continuar mantendo o pai prive seus filhos de cuidados e atenção; enquanto tentar interná-lo, à revelia do idoso, provoque o próprio julgamento moral que irá acompanhá-la por toda a vida.


terça-feira, 13 de junho de 2017

Tanta água

Para o pai que não mora com os filhos, utilizar as férias para um passeio em uma estância termal parece uma ótima opção. Assim Alberto (Néstor Guzzini) parte com o casal de pré-adolescentes em busca de um estreitamento na relação com as crianças.

O imprevisto já aconteceu com boa parte das famílias que esperaram ansiosamente por uma viagem inesquecível nas férias: dias de chuva torrencial. A metáfora na história das diretoras Ana Guevara e Leticia Jorge se refere à limpeza, algo que mudará na vida dos personagens como um rito de passagem com a purificação da água.

A irritação típica e inevitável é o que rende as primeiras cenas de comédia. Não há ‘plano b’ que alivie o tédio de quem esperava por dias de diversão à beira da piscina e encara um quarto fechado, sem muitas opções de distração e sem uma mísera televisão para ajudar a passar o tempo.

Sendo o adulto responsável Alberto, poderia ter mais maturidade para lidar com a situação adversa, porém ele também é o principal encarregado de uma viagem bem sucedida. Não bastasse a frustração evidente pelo tempo chuvoso, Alberto percebe que os filhos já não são crianças que se entretém com qualquer coisa. O senso crítico parece deixar a situação incontornável.

Frederico (Joaquín Castiglioni), o filho mais novo, prefere fazer novos amigos e andar de bicicleta pela colônia de férias do que fazer visitas guiadas pelas usinas e fábricas da região. Ele não menospreza o esforço do pai, nem nega sua atenção. É somente um interesse na diversão imediata ao invés de um passeio em família que, apesar de repleto de boas intenções, não poderia ser mais divertido que brincar com outros de sua idade.

Já a filha mais velha, Lucía (Malú Chouza), começa a entrar na adolescência e qualquer que seja a situação já tenderia a se afastar do cuidado paterno. Aquele aparente tédio constante que ronda os adolescentes é compreensivelmente agravado pela chuva e pelas condições de uma viagem não muito atrativa.

Não temos muitas informações sobre a vida dos três personagens antes da viagem, mas sendo as férias uma oportunidade de aproximação, as descobertas podem ser frustrantes para todos os lados.

É muito natural que Alberto fique frustrado ao ver sua paternidade muito mais dispensável do que ele esperava, ficando irritado ao perceber que não conseguirá ser o provedor de felicidade que tanto gostaria de ser aos filhos. Não se trata apenas da viagem de férias. Alberto vive o momento em que se dá conta de que os filhos ensaiam os primeiros passos de independência.

A apreensão do pai também é justificável. Não basta se acostumar com a ideia de ver os filhos independentes, mas de medir as responsabilidades paternas em uma fase delicada, sobretudo quando Lucía já não quer andar de bicicleta com outras crianças, mas sair sozinha com pessoas desconhecidas.

Alberto não quer adotar o perfil linha dura, talvez influenciado pelo fato de passar pouco tempo com os filhos e não querer cultivar uma imagem negativa nas oportunidades que tem junto a eles, ao mesmo tempo, aos pais nunca é fácil equilibrar a liberdade concedida e o receio por conta da inexperiência dos filhos.

Diante do novo, cada um a seu modo, os filhos irão se machucar. É inevitável e necessário que isso aconteça. O desafio de Alberto, como de qualquer pai, é saber quando intervir para reduzir os danos. Não é tarefa fácil e cabe lembrar que a dificuldade também é grande para os filhos.

Assistimos ao filme com o olhar de quem já passou pela adolescência e consegue ver os problemas com a devida distância, porém Lucía começa a entrar em uma fase da vida em que ser rejeitada em um círculo social é uma situação inadmissível. Sem ter abandonado completamente a infância e ainda longe de uma maturidade para lidar com situações cotidianas, ainda que desagradáveis, o apoio do pai pode ser benéfico.

Entre erros e acertos Alberto tem o mérito de enfrentar suas inseguranças como pai e arriscar na tentativa de preparar os filhos para o mundo. Sua dedicação e boa vontade têm efeito em um círculo restrito e não existe controle total quando os filhos saem de casa. É um momento delicado em que os papéis, dele e dos filhos, ainda não estão bem definidos. Se os erros são inevitáveis, fica interessante abordá-los em tom de comédia.


terça-feira, 6 de junho de 2017

Éden

O diretor Bruno Safadi usa estereótipos bem conhecidos, sobretudo nas periferias das grandes cidades, para estruturar o enredo de seu longa metragem. A protagonista Karine (Leandra Leal) vive um drama conhecido por muitas jovens brasileiras, o de encarar o fim da gravidez sozinha, por conta do assassinato do namorado.

A ausência paterna, por morte, prisão ou simples abandono, compromete o planejamento familiar de várias formas, jogando sobre jovens mulheres, muitas ainda adolescentes, um enorme peso de responsabilidades individuais e familiares.

Em uma sociedade conservadora as igrejas veem nesse cenário um espaço para reduzir o impacto social das famílias desestruturadas ao campo moral, incluindo no fardo carregado pelas mulheres o peso da culpa. No filme esse discurso é realizado pelo pastor Naldo (João Miguel), na sugestiva Igreja Evangélica do Éden, o paraíso bíblico do qual a humanidade foi expulsa por conta de um pecado feminino.

No desenvolvimento social da humanidade a religião sempre teve papel de destaque no campo do conhecimento. São as primeiras tentativas de explicar os questionamentos do homem que deram origem à figura divina. Não por acaso o chamado ‘pecado original’ se dá com o consumo do fruto que tira do criador o monopólio do conhecimento.

Na igreja do Éden o pastor é o líder supremo, que fala em nome de Deus e atua como se fosse seu representante direto – a exemplo de tantos religiosos que parecem crer serem o próprio deus. A igreja oferece a cura para um mal que ela mesma cria, pois transforma condutas individuais em pecado e oferece a remissão dos mesmos.

É como se o criador, ao invés de expulsar em definitivo os pecadores do paraíso oferecesse uma segunda chance, simbolizada pelo batismo que lava as impurezas da carne. Para isso os fiéis devem voltar a viver sob a égide do conhecimento retido pela igreja.

O pastor Naldo impõe aos fiéis, sob o pretexto de se manterem longe do pecado em suas diversas formas, distância dos meios de comunicação, restringindo assim a visão de mundo que os frequentadores da igreja terão. Aquele que desobedecer e simbolicamente comer o fruto do conhecimento é quem historicamente trai a confiança divina.

Desta forma Naldo tenta acolher Karine e dissipar suas angústias em troca de sua fé e de todo o simbolismo que a maternidade proporciona, que também é trabalhado para criar uma imagem positiva da igreja, que será explorada em propagandas voltadas para atrair mais fiéis – e mais dízimo.

Para a Igreja, Eva é a protagonista do pecado original. O rompimento do monopólio do conhecimento proporcionou o castigo divino que agora os representantes da vontade divina, em uma interpretação de parábolas nada objetivas, afirmam ter a capacidade de reparar.

Como vemos no filme, a realidade é mais complexa do que as vontades de um pastor. Uma religião cujos dogmas foram pensados há mais de dois mil anos torna-se ideologicamente anacrônica diante de problemas contemporâneos de uma sociedade moderna.

Por mais que a Igreja nunca tenha deixado de influenciar em questões sociais, o monopólio do discurso é insustentável em meio a tantas fontes de informação e o domínio sobre os fiéis tenta se manter com o controle psicológico por parte de seus líderes.

O filme de Bruno Safadi é bastante sensitivo. Nem tudo é dito explicitamente e a expressividade de Leandra Leal facilita bastante a compreensão de nuances da personagem. Esta é uma forma bastante abstrata de comunicação que, tanto quanto uma metáfora bíblica, é aberta à interpretação de quem assiste.

O que difere a narrativa religiosa, abstrata e de ampla interpretação, da narrativa cinematográfica é que esta não restringe o público a uma versão oficial, cuja contestação implica em pecado passível de punição. As artes, mesmo quando relacionadas diretamente com a fé religiosa, sempre assumiram o protagonismo do questionamento.

Cabe pensarmos se Karine, diante de uma escolha, irá optar por voltar ao simbolismo do Jardim de Éden e aceitar a vida mantida pelas rédeas do Pastor Naldo, ou se a protagonista assumirá as consequências de seus atos, simbolizando uma Eva moderna que não hesita em pagar o preço pela liberdade.

Em tempos de extremismo religioso em evidência, a possibilidade de questionar dogmas e optar pela vida livre de rédeas é sedutora. Necessitamos mesmo de um Éden que nos dá um aparente conforto em troca do conhecimento?


quarta-feira, 31 de maio de 2017

A culpa do cordeiro (La culpa del cordero)

Depois de 35 anos de casados, Jorge (Ricardo Couto) e Elena (Susana Groisman) convidam os filhos para um almoço de domingo. Uma bela peça de cordeiro é temperada com antecedência, todos os detalhes são organizados e em um belo dia ensolarado todos os convidados – quase intimados – chegam para a reunião em família, que prometia uma grande revelação por parte dos pais.

Dois filhos e duas filhas harmonizavam até as nuances genéticas de uma família equilibrada, feliz e perfeita. Por um convívio mais intenso Elena faz questão de recolher todos os celulares e acompanha de perto aqueles que se afastam por muito tempo.

O rigor dos pais parece extremamente compreensível. Recém aposentado, Jorge tem todo o direito de ditar as regras de seu churrasco e Elena parece fazer jus à ideia de que para a mãe os filhos serão sempre crianças. Mas é quebrando esse estereótipo de família perfeita que o diretor Gabriel Drak constrói sua comédia com fatos cotidianos, estereotipados, mas bastante plausíveis.

É claro que aquela família estilo comercial de margarina não existe na vida real. Porém pequenos entraves, naturais e inevitáveis, não desconstruiriam os planos do casal de ter uma aposentadoria tranquila e ver a vida dos filhos bem encaminhada.

Apesar disso, aos poucos, vemos que a aposentadoria tranquila está ameaçada por vidas não tão bem encaminhadas. Aparentemente o excesso de zelo materno formou adultos individualistas, desde que não seja rompido o apoio, sobretudo financeiro, dos pais.

Ao longo do filme o conflito de interesses passa a ser mais forte do que qualquer laço familiar e quando o caos se mostra irreversível só resta a cada um tentar minimizar as perdas. É muito cômodo, em uma situação onde todos têm comportamentos criticáveis, agirmos individualmente. Nos afastamos um pouco do problema e com uma visão minimamente privilegiada fica fácil apontar os defeitos.

O que vai ficando cada vez mais claro é que a aparência de uma vida perfeita sempre foi mais valorizada que a conduta moral da família. Em nenhum momento os filhos, já adultos, se portam como responsáveis pelos seus atos. A preocupação é sempre de esconder determinadas ações, para fugir da bronca dos pais.

Curioso que mesmo sendo quatro irmãos com idades próximas, a cumplicidade esperada entre irmãos se manifesta, mas também o egoísmo de quem está habituado a encarar o mundo como um privilegiado. É uma atitude condizente com o comportamento de Elena.

Não que Jorge esteja isento de críticas e possa ser visto como uma vítima, afinal são 35 anos de casamento, ao longo dos quais a vida do casal poderia ter tido mais empatia, mas a matriarca se refere à família sempre no coletivo, inclui o marido e os filhos em sua imagem de vida ideal, sem nunca questionar se esses valores são realmente compartilhados ou desejados por todos.

A relação de falsa independência, que quer expor os próprios ideais, porém sustentados por outra pessoa, é evidente em Elena. Idealizar o futuro dos seus sonhos e envolver várias pessoas para que sua realização particular seja completa é tão natural para a personagem, que ela sequer percebe que eventualmente as pessoas podem ter outros planos, sem sentir segurança para frustrar as suas expectativas.

Talvez pouco pudesse ser feito para que o domingo de farsa não descambasse para a tragédia. Os nervos foram levados ao limite, naquele ponto em que extravasar é indispensável e o caminho não tem mais volta. Entretanto é possível pensar que se Jorge tivesse sido um pouco mais incisivo em suas insatisfações ao longo do casamento e se Elena não sacrificasse a realidade em prol de suas idealizações de vida perfeita, uma dialética poderia ter sido construída de forma mais sólida.

Em tantos anos de casamento é inevitável que apareçam frustrações dos dois lados. Ao longo da vida costumamos desenvolver maturidade para adaptar as expectativas à realidade. Nosso ideal de vida nunca será alcançado, pois é um mundo onírico e perfeito que nunca será plenamente materializado.

Admitir que nossas expectativas devem ser moldadas à realidade – o que não significa abrir mão completamente do que queremos – é uma forma de respeito com as pessoas com quem interagimos e que também têm suas expectativas alteradas de acordo com nossas ações. Negar as próprias responsabilidades costuma ser cômodo, mas não adianta por a culpa no cordeiro do almoço, que reuniu a família.


terça-feira, 23 de maio de 2017

A que distância (Qué tan lejos)

Este filme nos proporciona um resumo de viagem entre Quito, a capital equatoriana, e a cidade de Cuenca, ao sul do país. Cada personagem tem seu motivo particular para cruzar o país. Mais do que os cerca de 500 km de distância, o que separa as cidades naquele dia é uma paralisação nacional dos trabalhadores.

A diretora Tania Hermida diversifica as personagens, todas carregadas de simbolismo, trazendo vários elementos à trama, que aparenta ter mais intenção de despertar questionamentos do que oferecer um resultado pontual.

Na trama a espanhola Esperanza (Tania Martinez) visita o país sul-americano com o peso de ter nascido na metrópole. É evidente que nenhum espanhol ou português de hoje tem responsabilidade direta sobre o que seus antepassados fizeram ao longo de séculos de exploração na América Latina, porém é igualmente inevitável ver tantos problemas sociais com raízes na colonização.

Em contraponto à Esperanza vemos a protagonista que se apresenta como Tristeza (Cecilia Vallejo). A jovem, idealista e passional, não hesita em cruzar o país para impedir o casamento daquele que acredita ser o amor de sua vida. A princípio não é com bons olhos que ela vê a estabanada turista espanhola, que parece ser bem pouco politizada para seus padrões.

No caminho de ambas está a greve geral, sem prazo para acabar, que poderia adiar a viagem. Esperanza poderia não conhecer o país e Tristeza chegaria tarde demais para tentar evitar o casamento. A diferença, mais do que a meta da viagem, está na reação de ambas.

Esperanza não compreende muito bem a motivação dos indígenas responsáveis pela paralização. Ainda que não existam imagens das manifestações, a indicação de que ela é coordenada por indígenas deixa claro que o movimento é articulado nas forças sindicais de base. Ainda que os espanhóis não tenham posto em prática uma política de extermínio indígena, até hoje os descendentes diretos dos incas formam a camada mais pobre da região andina.

Já Tristeza tem uma consciência política muito mais ligada ao movimento grevista e as dificuldades que a greve impõe não são empecilhos suficientes para que a jovem deixe de apoiar a causa. Determinada e irredutível em seu objetivo, ela resolve fazer a viagem, mesmo que para isso tenha que pedir carona e levar, à revelia, Esperanza.

O trajeto serve para algumas conversas esclarecedoras entre duas personagens que passam a desfazer preconceitos criados pelas respectivas primeiras impressões. Além disso, a diretora aproveita para exibir algumas características do país. Tanto as qualidades quanto os defeitos. Infelizmente parece que as belezas naturais concentram as qualidades que o país tem a oferecer, enquanto a insegurança e os problemas sociais diversificam os pontos negativos.

Até mesmo uma simples carona, que pode facilitar a vida de viajantes em muitos lugares, no Equador e na maior parte da América Latina é algo a ser feito com muito cuidado e atenção redobrada no caso de duas mulheres.

Entre tropeços e avanços, no caminho a dupla conhece Jesus (Pancho Aguirre). Enigmático e profundo, o personagem uma síntese entre o lado politizado de Tristeza e a maturidade de Esperanza para as questões emocionais.

O ator errante que cruza o país com as cinzas da avó em uma urna acaba sendo a metáfora de guia, que mostra às novas amigas tanto o caminho físico até Cuenca quanto um caminho emocional, através do desapego material e da sabedoria prática de lidar com situações adversas da vida.

É possível encontrar no filme uma tendência de dividir o sentimento passional. Uma parte é mais egoísta e expressa pelo desejo de Tristeza de reatar seu relacionamento. Neste sentido a imaturidade da menina é logo compreendida por seus dois amigos mais experientes, que notam o equívoco ao mesmo tempo em que se compadecem com o sentimento da jovem.

Além disso, existe uma passionalidade que visa algo maior que o indivíduo, que também tem Tristeza como ponto central, pois mesmo tendo sua viagem extremamente dificultada pela greve geral do país, ela não somente apoia o movimento como é bastante didática ao explicar para Esperanza que a causa era justa.

Tanto no cinema quanto na vida, são frequentes as histórias de amigos que partem para uma viagem trabalhosa, que acaba abalando a estrutura das amizades. Isso deixa ainda mais interessante o sentido inverso, quando uma viagem inusitada e não programada acaba unido personalidades aparentemente divergentes.


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